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quinta-feira, 30 de maio de 2019

A Fome e o Desemprego



A fome ainda é um tema proibido. Desde o início da civilização que o tema fome é discutido, mas sem nenhuma solução efetiva. A agricultura poderia ser o meio mais eficaz para se combater este mal. Políticas públicas não são planejadas no âmbito do Município para se erradicar de uma vez por todo, o problema da fome. As secretarias de Ação Social, Saúde e Agricultura, poderiam muito bem, desenvolverem projetos neste sentido. Mas a ociosidade e o comodismo, não deixam as cabeças dos titulares destas pastas, pensarem. E o problema continua!

Cooperativas, Associações Comunitárias [Urbanas e rurais], organismos públicos e privados, as escolas; poderiam se organizar através de Simpósios, e ver se dali saia alguma idéia para se combater a fome.

O aproveitamento de muitos alimentos que tem em suas cascas a maior parte das vitaminas, não é aproveitado. Às vezes por desconhecimentos. Outras vezes por puro comodismo e “nojo”.

O SESI, o SENAI, são organismos que se dispõe a dar aulas de orientações de como aproveitar melhor os nossos alimentos. Porque não conveniar estas entidades a, por exemplos, CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas), Prefeitura, Câmara de Vereadores, e Casa de Cultura?

Nós nos acostumamos a reclamar. Mas são reclamações que não levam a nada. Mesmo porque, quando somos chamados a encampar lutas para o progresso de nossa terra, esquivamo-nos e dizemos que não temos tempo para tal prática.

Tivemos um exemplo bem há pouco tempo, que foi quando a ex-professora e micro-empresária Carminha Vicente Leite Ferreira [filha do saudoso Antonio Vicente e de dona Terezinha], que organizou um pequeno grupo de pessoas e formou uma entidade denominada “Nossa Terra Solidária.” Não teve muito êxito! Por quê? Por culpa de Carminha?

Não! A culpa foi nossa mesmo. Porque ela se dispôs a entregar o seu comércio a terceiros, para disponibilizar o seu pouco tempo, para ensinar as pessoas a fazerem RENDA. A famosa Renda Renascença. E os “urubus” de plantão, começaram a imaginar que ela estava ali para colher dividendos políticos.

O empresário e agropecuarista Enoque Leite Gomes [da Pães e Massas Finas e Fazenda “Santa Clara"]; também foi mau interpretado quando se entregou de corpo e alma na organização da Associação de Caprinos e Ovinos do Vale do Piancó [hoje desativada]. Acharam que ele queria ocupar espaços para enveredar pelo campo da política.

Por isso que as coisas não funcionam e a fome persiste em nossa cidade. E para acompanhar a fome, vem o desemprego que consome as mentes das pessoas, levando-as a depressões profundas. Ocasionando a inadimplência no comércio local. Desorganizando muitos projetos pessoais e destruindo o nosso Município, e muitos lares.

O que fazer, para solucionarmos de uma vez por todas estes males que nos corroem e que nos afligem?  Será que rezar é o suficiente?

Programas sociais poderiam amenizar a fome e o desemprego. O que faz hoje o Governo Federal não pode ser exemplo para tirar o nosso Município deste atraso. Teriam os governantes, que planejarem melhor uma ação para solucionar o problema, e não para escondê-lo. Sabemos que muitos de nós hoje estamos vivendo graças a estes projetos do governo federal. Mas depois que ele deixar o governo, como ficarão as pessoas que hoje estão cadastradas? O caos será maior, pois se os programas fossem no sentido de instruir as famílias para se sustentarem, através de hortas comunitárias, artesanatos, cursos técnicos, etc., isso poderia ser bem aceito.

Não é a toa que muitos eleitores aproveitam os períodos eleitorais para explorarem os candidatos pedindo-lhe tijolos, telhas, dentaduras, óculos, etc. Eles sabem que depois de eleitos, nada mais será feito para a população. E o problema da fome e do desemprego ainda será o nosso grande desafio para este século que se inicia.

Antonio Cabral

 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Antônio Açôite

/Ainda menino afoito, entre os sete e oito anos, / 

/Conheci um “doido”, chamado Antônio Açoite. / 
/Hoje, para mim, era um lendário, um visionário. / 
/Mesmo assim, tinha medo, não dormia à noite. / 

/A minha mãe quando queria que eu fizesse algo/ 
/Dizia-me para eu cumprir e não deixar esquecido / 
/Senão chamaria Antônio Açoite para ele resolver. / 
/Então se instalava na minha cabeça um zumbido. / 

/Ele era um homem de estatura muito avantajada, / 
/Tratava a minha mãe como madrinha e devoção; / 
/Tinha na mão um cordão com a pedra amarrada, / 
/Seu brinquedo preferido que lhe causava emoção. / 

/Na minha rua, sempre passava no mesmo horário, / 
/E eu temerário, debaixo da cama esperava sua ida;/ 
/Não tinha outra saída, minha mãe muito atenciosa/ 
/O admirava e o respeitava, entendendo a sua vida. / 


João Pessoa, 03 de março de 2019 – 09h22min. 

José Ventura Filho

sábado, 6 de abril de 2019

De volta às águas do Rio Piancó



Até que enfim chegou um pouco de água no nosso rio Piancó, hoje tão cansado de tanta espera e aflição. É de dar dó... 

Ainda não cheio, de barreia a barreira, mas espero que em breve ocorra esse momento mágico e necessário, porque só assim as boas lembranças virão à tona, detonando a pulsação da emoção e do grito de esperança guardada por um povo trabalhador, humilde e honesto, mas sofrido e desassistido...

Embora esteja na ausência do seu corpo físico, tão bem desenhado pelas curvas geográficas, tendo sua origem lá na Serra Dona Inês, em Conceição-PB e o seu destino final nos braços do açude de Coremas-PB, descortinarei o véu da alegria e da nostalgia, reclamado há muito tempo dentro de mim...

Suas águas eram remédios para cicatrizar as mágoas dos dias escaldantes, gritando pela salvação da sede provocada nas casas desprovidas, nas plantações sofridas e nos animais raquíticos demais...

O banho puro naquelas águas tão lindas não tinha preço, nem endereço de perdição. Era simplesmente um lugar fértil de criação ofertado pelo mundo subjetivo e vivido de uma criança, sem qualquer apego às coisas materiais... 

O amanhecer era o convite desejado por todos os seus visitantes para caírem nos braços da sonoridade e da beleza estonteante na leveza da sua correnteza... 

As folhas verdejantes das árvores seculares, sopradas incansavelmente pelo vento, comunicava a chegada daquele evento memorável... As suas sombras acolhiam o descanso do guerreiro extasiado de prazer... 

Os cantos dos passarinhos em notas breves e suaves entoavam as mais perfeitas melodias, adornando aquele espaço fantástico...

Os animais rasteiros se acasalavam, correndo sem direção pela ribanceira, em busca de suas presas ou fugindo das mãos certeiras dos seus algozes... 

Os diversos peixes saltitavam sem compromissos e sem previsão do perigo iminente...

As sereias, sem donos, naquelas areias transparentes, eram fotografadas pelos olhos estupefatos e pidões... 

O pôr do sol acobertava o sussurro profundo da efêmera felicidade... E a velocidade das horas anunciava, inesperadamente, no ouvido da reclamação a implacável quebra de toda aquela magia. Era o pior castigo sentenciado pela mão do tempo, filho da mãe- natureza... 

Assim, afogado em lágrimas de saudade que caem freneticamente dos meus olhos, procuro em meus sonhos voltar às águas puras do meu rio Piancó.

José Ventura Filho

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O VELHO PIANCÓ

  
Refrão:
É de fazer pena
É de fazer dó
Os políticos afundaram
A cidade de Piancó


A maioria das ruas/tem nome de caneiros
Aprovado pela Câmara/porque são interesseiros!
Quando chega a eleição/é aquele desespero/trocando o eleitor/
Por cimento e por dinheiro


Piancó tinha cinema,/acho que você se lembra.
Um campo de aviação/esse foi para o Japão.
Uma usina de reciclagem./ Ta dentro do matagal
Tinha uma tecelagem,/essa não existe mais
Tinha uma Cibrasém/essa foi para o além
Bradesco e Caixa Econômica/isso ninguém mais encontra


A receita Federal/tá de Patos a Pombal
A usina de algodão/hoje é forró do pueirão
Os vereadores assinaram/um projeto outro dia
Esse foi lascando o pobre/com o talão de energia
Tirando da mesa deles/o pão de cada dia
A eleição se aproxima/eu não sei qual é o dia
A Câmara de vereadores/essa parece um metrô
Não faz nada pelo pobre/nem fala nem da valor


Tinha Basto do motor/com uma vara na mão
Acendia a luz da cidade/pra não ter escuridão
Já passou 50 anos/Piancó não mudou nada
Agora entrou João Bingo/com outra vara na mão
Acende a luz da cidade/pra toda população
Você só ver promessa/quando chega à eleição


Acabou a Cooperativa/IBGE e Funrural/onde o velho aposentava
O diretor era Joval
Acabou a Banda de Música/o Cabaçal ficou atrás
O que tinha em Piancó/você morre e não ver mais


Vou encerrar/,que minha saudação desejada
Do amigo Nêgo Lula/que faz da vida piada
Onde está parece um circo/só se ouvem as gargalhadas
E na mesa de um bar/é o rei da presepada.


Nêgo Lula


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

Em 2001 editei uma publicação intitulada “ALGUNS DADOS SOBRE PIANCÓ”, me baseando em depoimentos do saudoso Mestre Eurides e da Professora Joanita escrevi este texto. Hoje Piancó está em festa e achei conveniente publicar tal ensaio.


NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

O DIA ANTERIOR


Era anoitecer do dia oito de fevereiro de 1926 em Piancó. Quase cessando o movimento de pessoas nas ruas da Vila. Dúvida e apreensão absolutas pairavam na mente de todos. Ao longe os cães latiam anunciando a chegada de um estranho ou a partida de seu dono.

Na sala principal da casa grande, residência do Padre e família, os mosquitos circulavam a luz que iluminava o ambiente tenso. Sentados em círculo, o Prefeito João Lacerda, seu filho Osvaldo Lacerda, Manoel Clementino, escrivão do então Distrito de Aguiar, Hostilio Gambarra, distribuidor em juízo, Pedro Inácio Liberalino, José Ferreira e o Padre Aristides Ferreira da Cruz. Falava-se pouco, sempre conversas entrecortadas, nunca um diálogo demorado. Entra na sala uma senhora de aspecto servil e em silêncio, distribui café e chá aos presentes. Era D. Quita, senhora de Padre e mãe de seus quatro filhos então adolescentes: Jorge, Sebastião, Aristides e Juanita.

Novamente a sós, o silêncio imperava. Aqui, acolá uma frase curta. Todos sabiam do risco de continuar na cidade. O mais sensato seria procurar sair em busca de proteção, mas longe de tentar convencer o Padre dessa ideia.

Logo um alvoroço, uma agitação e entra alguém informando a chegada do cachorro de estimação do senhor José Maria, irmão de D. Quita, e que residia em Coremas. Todos quiseram saber quem o cachorro acompanha. O temor aumentou quando se soube que este havia aparecido sozinho.

Alguém devia estar chegando do vizinho município, por onde a Coluna de revoltosos teria passado naquela manhã.

As horas avançavam feito chamas. Logo chegaria o momento da despedida, das recomendações e do adeus. Estava já acertado, D. Quita, os filhos e os empregados deixariam a casa logo mais, permaneceriam o Padre mais alguns amigos, na manhã seguinte, outros que também resistiriam estavam sendo aguardados.

Em meio a agitação gerada em torno da chegada do cachorro, surge à porta um jovem, apressado, e pede a presença do Padre, uma vez atendido, o mensageiro se identificou e entregou ao Padre um envelope meio amassado e úmido de suor, com um escrito que dizia: “Não tente resistir, é uma ideia absurda. Passa de mil homens com armamento e disposição, alguns até com aparente falta de disciplina. Desde a manhã de hoje Coremas foi invadida por um exército de guerrilheiros desalmados, cruéis”.

A sala se encheu rapidamente, todos apreensivos fitavam o Padre, no seu rosto uma nítida expressão de tristeza. Ele sabia, todos mais uma vez tentariam convencê-lo a deixar a cidade, agora com argumentos mais sensatos. A aflição do Padre poderia ser notada também no semblante desolado de D. Quita e dos filhos. Todos temiam o pior. O Padre estava dominado por uma sensação de impotência. A ideia de abandonar a cidade não era nada honroso para um chefe político na sua envergadura. Dúvida cruel. Enquanto o seu orgulho de homem público e de defensor do povo e da cidade, forçavam-no a ficar, uma porção de medo de perder Quita e os filhos, levava-o apensar na possibilidade de fugir.

Os amigos foram unânimes. O Padre devia sair com a família, deixasse um grupo de homens de confiança protegendo a cidade. E instantes depois o Padre consentiu em acompanhar os seus familiares a uma fazenda distante, até os revoltosos saírem de Piancó. O temor da separação deu lugar a agitação da arrumação dos objetos que levariam na viagem. Já havia alegria entre os presentes na casa grande. As carroças e os animais que seriam usados no transporte da família foram conduzidos até a porta da frente.

Um levava, o outro trazia, um dizia, outro escutava, mas, o Padre continuava pensativo, distante dalí, alheio ao que se falava na vasta sala, pelas janelas fronteiriças seu olhar vagueava o mundo à fora. O “tigre” acuado em sua morada. Recordou a hecatombe de 1922, fazia quatro anos, teve que fugir e buscar junto ao Presidente Epitácio Pessoa, seu chefe, proteção para voltar a assumir o poder no munícipio, foi a mais cruenta e desastrosa contenda com a família Leite. Agora teria que fugir de novo. E o telegrama do Governador João Suassuna? Era a oportunidade ideal de conquistar a simpatia do governante, que por sua vez demonstrava mais aproximação com os seus inimigos políticos. Não podia também decepcionar a população local, deixando que os seus bens fossem saqueados e destruídos.

Há instantes da partida, voltou atrás e mudou de ideia. bateu o pé e não saiu além da calçada para despedir-se da família. Era esperada uma reação de descontentamento dos amigos, o que se deu certamente, mas não convenceu e o Padre ficou.


Antonio Francisco

sábado, 17 de fevereiro de 2018

SONO PESADO

A partir de hoje, motivado por alguns amigos, vou contar, de vez em quando, algumas reminiscências que me trazem saudades e que marcaram a minha vida. Há algum tempo atrás, toda vez que visitava Piancó, minha terra querida, ao subir à rua principal para a minha obrigatória visita a Santo Barbeiro, Assis Remígio e Galego da Discoteca, encontrava meus amigos de infância e, entre eles João de Joval e Pedro de Tota Freire. 

Como sempre, surgia o convite para caçar ou pescar. Certa vez, na calçada da barbearia, acertamos que a caçada seria no Barrento, na propriedade do meu tio Djalma Ângelo. Naquela época, não havia o rigor da lei e nós não tínhamos nenhuma consciência ecológica. Na verdade, hoje, já não pratico esse hobby.

João de Joval, como sempre, se encarregou de arranjar um cachorro bom de caça e as redes para a pescaria. Eu entraria no “racha” para comprar os mantimentos e pagar o carro de praça que nos levaria até Catingueira. Tudo pronto, seguimos viagem. Mas, antes de chegarmos ao local da caçada aconteceu um imprevisto.

O cachorro que João tomou emprestado a um amigo dele lá da Rua Nova não estava acostumado a viajar de carro e vomitou dentro do veículo, deixando o motorista furioso que, por sua vez, ameaçou nos despejar no meio da estrada. João, irritado, queria resolver o problema ao seu modo, ou seja, “no pau”. Depois de uma discussão tremenda, “desce não desce”, consegui conciliar as partes e, após de uma limpeza rápida, seguimos viagem.

Finalmente, chegamos ao açude da fazenda, que fica ao lado direito da BR Redenção do Vale, no sentido Piancó-Patos. Preparamos o rancho, fizemos o jantar e passamos as redes dentro d’água. Nossa comitiva era formada por mim, João de Joaval, Lucimar e Caramba de Cula. Mais tarde, se juntaram a nós, tio Djalma, Mané Firmino e Djalma Júnior. 

Pra variar não pescamos nenhum peixe, mas fizemos um jantar improvisado com os mantimentos que levamos. Bebemos muita cachaça para espantar o vento frio que soprava. Foi nesse dia que Mané Firmino, “comendo corda” de Djalma, e bêbado que só a gota, pegou numa brasa de fogo com as mãos para ele acender um cigarro.

Escureceu. Às 9 horas da noite, saímos para caçar numa aba de serrote que ficava perto do açude. “Ali deve ter tatu demais Orlando”, profetizou João, muito otimista como de hábito. Como tudo foi organizado de última hora, só levamos um farol, insuficiente para iluminar o caminho para quatro pessoas caminhar dentro do mato, serra à cima, num terreno acidentado como aquele onde estávamos. 

Surgiu aí a primeira parte engraçada da estória. João seguia na frente com o farol, eu logo atrás dele, Caramba depois de mim e Lucimar por último, gaguejando e conversando sozinho por força da embriaguez.

De propósito, João andava depressa, sempre seguido de perto por mim. Os que vinham mais atrás reclamavam da escuridão e diziam palavrões de todo tipo, principalmente Lucimar. Ao chegarmos num terreno muito acidentado e cheio de pedras, ouvimos um grande barulho, semelhante à derrapagem de um carro numa curva fechada. 

Quando olhamos para trás com a ajuda da luz do farol, vimos Lucimar “catando cavaco” numa posição idêntica a de um esquiador na neve. Mas o que nos deixou curiosos foi o barulho, tendo em vista que o solado de botas não fariam aquela zoada. 

Quando chegamos mais perto e João jogou a luz do farol em cima dele foi que notamos a presepada: Lucimar estava calçado com chuteiras de futebol, meiões e tudo. Gritava: “Ai meu Deus, me acuda aqui”. Ninguém moveu uma palha para acudi-lo. Foi mais de meia hora de risos e gozações. Lucimar gaguejando e praguejando mais do que o habitual mandou tudo mundo se lascar e desfiou um incontável número de palavrões.

Passado este divertido imprevisto, seguimos em frente. O cachorro que tomamos emprestado era ruim de caça até dizer basta e não saia de nossos pés. João justificava dizendo se tratar de um cão inexperiente, mas a verdade era que o bicho era “gozo” mesmo. 

Já estávamos ficando irritados e com muito sono provocado pela aguardente, quando ouvimos o cachorro latir não muito longe de onde estávamos. “Ele ta ‘falando acuado’. Eu não disse que o danado era bom de caça compadre”, gritou João andando apressado e eufórico para o local dos latidos. Quando chegamos lá, o encontramos latindo ao pé de uma pedra.

Meu compadre, mais uma vez, profetizou: “deve ser um tatu”. Nos preparamos para arrancar o bicho. Enfiamos varas no buraco, cavamos, fizemos de tudo e nada do tatu aparecer. Suando por todos os poros, João de Joval nos pediu silêncio, pois ia escutar se tinha alguma coisa no local onde estávamos cavando. 

Ficamos todos calados e ele se deitou dentro do buraco, se ajeitou e ficou imóvel. Haja o tempo passar e nada de João se levantar. No início, quando eu o chamava ele ainda dava um sinal com a mão mandando esperar. Depois de algum tempo, nem isso fazia mais. 

Quase uma hora depois, não agüentando mais a demora, fui ver de perto o que se passava com ele. Bati em João e nada dele dar sinal de vida. Irritado peguei o farol, cheguei perto e iluminei. Tamanha foi minha surpresa quando vi que João de Joval dormia profundamente dentro do buraco. 

Comecei a cutucá-lo com a ponta do cabo do cavador e, depois de muitos protestos, ele acordou sorrindo e com a maior cara de pau do mundo foi logo dizendo: “aqui não tem porra nenhuma não, home”. Foi aquela gozação. A caçada terminou aí. Também pudera, depois dessa.

Publicado originalmente por Orlando Ângelo

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

POR QUE SOU PIANCOENSE?


Primeiramente, porque nasci e ali desfrutei da sombra; do sol; das tardes; das manhãs; das noites e de todos os momentos oferecidos pelos dias dessa cidade rica de sabores e de amores puros, presentes nas mentes quentes de um povo tão acolhedor, independentemente da situação de cada pessoa.   
Cresci vendo e sentindo a seca e os horrores de suas causas; os conflitos das casas e as suas dificuldades... Cresci estudando em colégios de ricos e de pobres, onde não existia tal diferença e lacuna... As freiras eram testemunhas daqueles ensinamentos... Seu Cirilo e dona Rosa, que moravam na lateral do Colégio Santo Antônio, fabricavam as hóstias paras as missas naquele educandário... O que se levava em conta eram a tradição, o conceito e a harmonia linear, seguidos entre todos que ali desfrutavam aquele prazeroso ciclo de vida... Tudo tinha uma harmonia natural... Não existiam subterfúgio nem interesse político selvagem... 
Meus pais são: José Ventura de Souza, alfaiate, Joana Lúcio Ventura, professora. Os segredos, além das roupas, eram confiados ao meu pai, que os ouvia, dando o devido conselho. Hoje, ele é esquecido por alguns, mas lembrado por outros.  Minha mãe foi professora do Colégio Ademar Leite e do Grupo Alto Belo Horizonte... Era detentora do futuro das crianças e dos jovens que a procuravam recebendo dos seus ensinamentos os conhecimentos para o sustentáculo de uma base sólida de um futuro promissor... 
Conheci o Rio Piancó e o Riacho do Conselho, durante as cheias do inverno, quando enchia e molhava, com intensidade, os campos; as ruas e os mananciais, complemento da felicidade da minha infância e adolescência... 
Aprendi a nadar, em cima de uma caixa de isopor, no açude de Neco Moreira, próximo ao Rio Piancó e a propriedade de Leonel, aquele que tinha um “caroço” nas costas, onde tinha maravilhosos pés de mangas que mangavam, antecipadamente, do meu futuro... Quantos caminhos percorridos em sua direção! Quantas corridas de camisa e alpargatas nas mãos pelos córregos e caminhos espinhosos, sem direção!  
No meio daquela caminhada, cheia de aventuras, sentia o cheiro das frutas; ouvia os sons de passarinhos, brincando pelos galhos e pelos ninhos... Via as cobras e os calangos se arrastando pelo chão; os animais no pasto; as crianças de pés descalços, brincado de futebol no meio da rua; o voleibol; o de bola de gude; as brincadeiras de pião; de carros de flandres; de notas de cigarros; de pipa; de pião; de bicicleta; de bizuri; de bandeirinha e de outras entretenimentos que nos separavam do mundo real, além das prosas prazerosas...
Ali, eu crescia e via as brigas de galos; de canários; via os bêbados nos finais de feira cambaleando e se apoiando no muro da lateral do Colégio Santo Antônio, vizinho à minha residência, querendo chegar ao destino final; ouvia os rezadores, quando alguém os procurava para curar a doença do seu filho ou de alguém da família; a descobrir o autor de algum roubo praticado ou a causa de um incêndio acontecido; ouvia a melodia mais linda vinda das cantorias e dos aboios; as experiências e as histórias fantasiosas, regadas pelas as de lobisomens, entre outras, contadas pelos “asilados”(estudantes; engenheiros; médicos; professores; agricultores, entre outros), na alfaiataria do meu pai, quando eu ainda era menino, deitado em cima daquela mesa cheia de retalhos de panos e do cheiro do ferro quente na almofada que servia de travesseiro para minha cabeça, embalando os meus sonhos de um dia ser vaqueiro... 
As músicas de outrora eram lindas e continuam, até hoje, me dando profunda emoção, principalmente as tocadas pelas orquestras nos grandes carnavais, comandadas por Mestre Elizeu; Nêgo Lula e outros donos daqueles dons ofertados por Deus; na Festa de Santo Antônio e nas ocasiões dos bailes realizados no Piancó Clube.
Do Parque de Seu Lima, quando da sua chegada nos festejos da festa do padroeiro de Santo Antônio, no mês de junho? Era uma só alegria... Namorados de mãos dadas desfrutando das missas e das carícias inocentes, vivenciadas nos cantinhos escuros das árvores na Praça Salviano Leite... Das músicas tocadas na rádio difusora, comandada por Asuélio, conhecido por Nitrozim, entre elas, a Praça, cantada por Ronnie Von, eternizando aqueles momentos? E o possível pecado ou culpa eram resolvidos com orações nas quermesses realizadas na Igreja Velha ou quando das missões de Frei Damião.  
Quem não se lembra do velho Macena? Aquele que participou da Coluna Prestes em 26 de fevereiro de 1926, quando foi assassinado o Padre Aristides. Foi ele, com aquela mão e dedos enrugados pelas balas e pelo tempo, que me ensinou, quando eu tinha 12 anos de idade, a comprar carne e a fazer a feira para minha casa... 
De Severino Ventura, meu tio, embora não formado, que construiu várias casas, até mesmo a cadeia pública de Piancó e de outras construções em Brasília-DF, assombrando os arquitetos e engenheiros daquele lugar? 
Dos barbeiros: Santo; Antônio Palmeira e Antônio Sabino, que cortavam os nossos cabelos pretos, hoje pintados de brancos pelas nossas lembranças e práticas de vida? 
Certo dia, minha mãe me deu dinheiro para cortar o cabelo e, desviando o caminho e o objetivo, juntamente com o meu primo Diô, fomos comer pão doce com refrigerante “fanta”, na época, de vasilhame de vidro, na “bodega” do Seu Plínio Ventura, primo do meu pai... Foi tanto barulho e aflição... Castigos e surras serviram de lição e de presenças curiosas marcantes pelos meus primos e familiares... 
E da sorveteira de Dino, em que os sorvetes molhavam as nossas roupas e os nossos desejos em chegar logo o horário da festa lá no Piancó-Clube ou no Bope? 
E das ruas: a Mascarenhas de Morais, que não esqueço jamais; a Rua Velha; a Rua Nova e as demais que faziam parte dos acontecimentos únicos de cada episódio? 
Pessoas sentadas nas calçadas debulhando conversas, fofocas e risos, enquanto outras ouviam pelo rádio a “Hora do Brasil” ou narração de jogo de futebol... 
E o Mercado Público? Dono de todas as atividades comerciais que soletrava, em especial, às segundas-feiras, com o ganha-pão de cada um, onde constava o peixe nas calçadas de Dona Porcina; as redes de dormir e de pescar; as frutas; as verduras; os cereais; as alpargatas; os tecidos; os perfumes; as panelas de alumínios; os condimentos; os alimentos; os produtos defensivos e agroindustriais; as gaiolas; os pássaros; as galinhas; os perus; porcos e outras caças; o açougue, com o piso todo enlameado da salmoura advindo da carne e os cachorros  farejando aquele local.  E no final um tiro ou um corre-corre, provocado por uma discussão sem futuro, no escurecer do beco da padaria de Justino Leite.
Lembro-me de Raimundo Gervásio, colega de infância, que não conhecia a cidade de Campina Grande, mas não tinha condições de visitá-la. Certo dia de feira, correndo com Nerivaldo Badú pelas calçadas daquele logradouro, ele, escorregou em uma casca de banana e, então, teve que se deslocar para aquela cidade, a fim de ali se submeter a uma cirurgia no braço. Chegou feliz em Piancó, porque atingira seu objetivo, ou seja, ter conhecido Campina Grande, embora com o braço enfaixado. 
Das peladas de futsal na quadra do Colégio Normal Santo Antônio e do Piancó-Clube; do futebol de campo nos Oitis; ao lado da Igreja do Rozário e no “Granitão”?
Dos “cabarés”, distribuídos pelos cantos escondidos da cidade para atender aos reclames recolhidos da jovialidade e da fragilidade daqueles errantes?  
E das autoridades que nos provocavam respeito; admiração e até medo? Entre elas: padre; prefeitos; médicos; delegados, e demais personagens que não dá para nominá-las.  
Nunca tive vontade de sair de Piancó, mas as condições e as oportunidades não me favoreceram. Fui impulsionado a encontrar uma outra situação de vida, assim como outros que aqui estão e passaram pela mesma situação. 
Hoje, distante da minha cidade, a cada dia me aproximo mais dela, através das minhas lembranças que as transfiro para os meus escritos; das notícias dos conterrâneos; dos sites e dos blogs, espalhados em todo Estado, que afloram, ainda mais, o meu âmago e a minha força positiva para com os piancoenses que ali residem; resistem e lutam contra as intempéries naturais e os planos ou projetos nocivos, impregnados; injustiçados; desenfreados e aliciados por um poder ou sistema político totalmente descompromissado com as nossas raízes e/ ou causas culturais, econômicas-financeiras e sociais.
Sempre acredito e respiro a esperança de que um dia o nosso povo não se deixará enganar por uma dose de ajuda ou um respingo de promessa de um paliativo qualquer, para que possa enxergar e lutar em busca de uma vida digna.
Em qualquer local, sou muito feliz em ser piancoense natural, mesmo distante fisicamente. Por isso, digo que Piancó está sempre presente no meu coração e na minha mente! 


José Ventura Filho

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

PADRE MANOEL OTAVIANO




Padre Manoel Otaviano de Moura Lima, para todos simplesmente Padre Otaviano, foi o que de melhor Santa Maria, hoje Ibiara, poderia ter dado a Piancó. Ordenado há pouco tempo no Seminário de Teresina, Capital do Piauí, chegou a Piancó nos idos do ano de 1912, para substituir, como Pároco, o Padre Aristides Ferreira da Cruz, que fôra afastado das funções e suspenso de órdens pelo Arcebispo Dom Adauto, como castigo por suas querelas políticas com o D.r Felizardo Leite, Deputado Federal e chefe político prestigiado da região.
O talento de Padre Otaviano dispensa apresentação mais profunda, imortalizado que se encontra na sua produção literária, em obras como “Mestre Mundo” (teatro), “Emboscadas do Destino“, “Tomaz Cajueiro“, e “Chefe Político” (romances), “Inácio da Catingueira” (conferência e ensaio literário sôbre o maior cantador da Paraíba e do Nordeste), e “Os Mártires do Piancó” – e não A Coluna Prestes na Paraíba, como criminosamente o rebatizaram em reedição infeliz – , relato magistral da resistência épica dos piancoenses à passagem daquela brava Coluna Militar pela cidade, a 9 de Fevereiro do ano de 1926. Citei, aqui, os livros do notável sacerdote, escritor e brilhante orador sacro, porque o episódio a ser narrado liga-se, diretamente, à sua obra “O Chefe Político“, que, como estudo sócio-político do nordeste, é muito mais substancioso que outros, fartamente idolatrado pela análise passional.
Mas vamos ao episódio, que êste libreto pretende, apenas narrar os fatos pitorêscos e reais ocorridos no “Velho Guerreiro“.
O Padre Otaviano entregara ao Deputado Federal Drault Ernany, que prometera reeditar o seu romance, os originais de “O Chefe Político“, considerado pela crítica especializada como sua obra-prima. Correu o tempo, e o representante paraibano junto à Baixa Câmara do Congresso Nacional emudeceu, por completo, apesar das reiteradas cobranças do Sacerdote escritor.
Chegou o ano de 1962 e, com êle, mais uma festa do glorioso Santo Antônio, padroeiro do município, celebrada na primeira quinzena do mês de Junho. Como era ano de eleição para renovação do Congresso Nacional e de Assembléias Estaduais, além do D.r Salviano Leite, filho da terra e Presidente do Consêlho Superior das Caixas Econômicas Federais, e do Senador Ruy Carneiro, que nunca deixaram de assisti-la, a cidade encheu-se de outros políticos que caçavam votos para alcançar um mandato ou uma renovação. Também foi demonstrar a sua devoção o Deputado Drault Ernany, que postulava sua reeleição e há tempos sumira daquelas plagas.
Após a procissão, foi jantar entre outros, na residência de dona Chiquinha Leite, genitora do D.r Salviano, o Deputado Drault Ernany. Lá encontrava-se, também, o Padre Otaviano, como amigo dileto da família e freqüentador assíduo da casa. Aproveitando o encontro, o Padre cobrou ao Deputado a promessa que êste lhe fizera de reeditar o seu livro. O Deputado, sem jeito, tentou justificar:
— Padre, o senhor vai me perdoar, mas perdi os originais do seu romance.
O Padre Otaviano, perplexo, sem querer acreditar no que ouvia, pulou da cadeira de balanço em que se encontrava, como que impulsionado por mola invisível, e atacou:
— Você é um irresponsável, Drault!
— Não, Padre…
— Um irresponsável, sim. Um livro, Drault, é um filho. Nasce das entranhas. Você não compreende isso porque é uma toupeira.
O Deputado Drault Ernany avermelhou, também se levantou de sua cadeira, qual fôsse agredir o ministro de Deus, que permanecia de dedo em riste a invectivá-lo. Os presentes intervieram, contornando o incidente. Serenado o constrangimento, o Deputado ainda tentou justificar a sua inconseqüência:
— Padre, sei que a minha negligência foi imperdoável. Porém, para compensá-lo, trouxe-lhe de presente do Velho Mundo, uma verdadeira relíquia. Como o senhor sabe, fui à Europa e, na minha passagem por Roma, conseguí uma audiência com o Santo Padre. Disse, então, à Sua Santidade, que desejava trazer êste têrço para o senhor, narrando-lhe as suas virtudes e o seu incansável trabalho de evangelização nêstes sertões inóspitos, durante meio século. Aqui está a relíquia (o têrço), que foi bento por Sua Santidade, especialmente para o senhor.
O Padre, cuja fúria não se acalmara de todo, levantou-se, novamente, da cadeira e disparou:
— Drault, você não me consola com isso, não. Essa porcaria eu também benzo e tem o mesmo valor.
E tinha mesmo!


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

MANOEL ROSALINA





Manoel Rosalina era o mestre da Banda de Música de Piancó. Bom músico de piston, era casado mas louco por um rabo de saia.
Júlia Barbosa, morena fogosa e que ostentava traços de mulher sedutora, era “tata“, isto é, pronunciava as palavras com dificuldade, de forma que, às vezes, as tornava ininteligíveis.
Pois bem, Manoel apaixonou-se pela morena, inciando com ela um romance, que era aceito sem discussões pela esposa de Manoel. O “mestre” passou a ser, então, para Júlia, o inigualável, o melhor músico da terra, porque assim raciocinava Júlia quando se apaixonava. O mesmo raciocínio formulou quando se apaixonou por um alfaiate, que, por sinal, era uma extraordinária vocação da arte da tesoura.
Um dia, Manoel Rosalina foi destituído do comando da Filarmônica Santo Antônio, que era mantida pela Prefeitura Municipal, mercê de um movimento que os componentes da Banda encetaram junto ao Prefeito, cujas razões são inteiramente dispensáveis comentar, aqui. Entregue a regência a outro músico inteligente, Júlia logo demonstrou o seu despeito e a sua revolta pela demissão do seu amor. E, em tôdas as ocasiões que se lhe apresentavam, externava o amargor contra o “ato iníquo“. E as pessoas, para a perriarem, louvavam a harmonia da filarmônica, sob a batuta do novo mestre.
Certa manhãzinha, quando a banda desfilava pelas ruas, tocando alvorada da festa de Santo Antônio, padroeiro da cidade, pessoas que se dirigiam ao rio para apanharem água nas cacimbas, disseram para alfinetar Júlia:
— Agora, sim, dá-se gosto ouvir a banda com o novo mestre…
A reação de Júlia foi imediata:
— Quia nada. Banda só no tempo de Mané. Agora, acabou-se bandão…
E soltou um suspiro inebriado de amor…



PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

 

MANOEL JUREMA




Manoel Tomaz, conhecido como Manoel “Jurema“, por haver nascido e sido criado na Fazenda Jurema do D.r Tiburtino Leite, transmitida depois ao seu filho D.r Djalma Leite, era um preto velho inteligente e dono de uma verve irresistível. Com acentuada veia poética, encantava a todos com os seus improvisos e as suas lôas hilariantes.
Perambulava ele entre Ôlho d’Água e Piancó, já dominado pelo vício da aguardente, esbanjando o dom que Deus lhe dera, perdulàriamente. Vivia, já, da ajuda dos que se divertiam com as suas tiradas formidáveis, comendo e bebendo às custas daqueles que lhe admiravam a presença de espírito incomum.
José J. de Melo, ainda hoje vivendo no Piancó, por sua estatura diminuta, tinha a alcunha de “Zezinho Tamborete“, é homem trabalhador, valente e detesta o apelido. Foi bodegueiro  durante muitos anos, de cujo pequeno comércio tirava a sua e a subsistência da família com honradez e sacrifício. A par dessas qualidades, possuía irresistível fraco pela poesia popular, não podendo ver um improvisador que lhe não fosse logo pedindo para entoar uma lôa.
Certa manhã, pervagava Jurema pelo comércio à procura de matar a sua “sêde“, pois acordara de ressaca e estava ansioso para “tirá-la“. Lembrando-se de que Zezinho Tamborete era “fan” incondicional do cordel, dirigiu-se até à sua mercearia na certeza de que satisfaria o vício, que mais tarde levá-lo-ia desta para a “melhor“. Em lá chegando, foi logo pedindo:
— Zezinho, bote um “oito” de cana p’ra mim.
O bodegueiro, que já sabia o poeta estar liso, como de costume, retrucou:
— Cante uma lôa, Jurema, que boto o “oito“.
O preto velho inteligente, macaco escolado que não botava a mão em cumbuca, redarguiu:
— Bote primeiro o “oito“, que depois eu tiro a lôa.
Zezinho rendeu-se e encheu o copo de aguardente, dando-o ao vate popular, que o sorveu de um hausto só. Respirou profundo, estalou a língua e disse:
— Aí vai a lôa, Zezinho:
Deus quando fez o mundo,
         Fez o grilo e o gafanhoto
         P’ra puxar gado ligeiro,
         Deixou meu braço canhoto.
         Também fez home pequeno
         P’ra cheirá o cu dos outo.
Não é necessário dizer que Jurema foi escorraçado da bodega debaixo de “tamboretadas“.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)


 
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