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sábado, 18 de janeiro de 2020

Piancó e o voto secreto

Piancó, o Voto Secreto e o Professor Mesmo com a oficialização do Voto Secreto só tendo ocorrido em 1934, por ato do Presidente Getúlio Vargas, Piancó já teria iniciado essa prática, em 1916. A particularidade foi presenciada por várias testemunhas, no entanto o sucedido não teve nenhuma expressão.

Em 1912, Austreclino José de Oliveira, pernambucano da cidade de Triunfo, chegou ao povoado de Garrotes, onde adquiriu um sítio, objetivando residir com os seus familiares. Instalou uma loja de tecidos e nas horas vagas, lecionava em uma escola particular de sua propriedade.


Considerado um intelectual, dominador da língua portuguesa, do latim e do inglês, logo conquistou a simpatia de inúmeros alunos que moravam nas cidades próximas e convergiam ao ser estabelecimento, aumentando cada vez mais a sua fama e despertando a admiração da classe política.

O professor tornou-se figura obrigatória em todas as festividades e por diversas vezes manifestou o desejo de ingressar na vida pública. A concorrência, no entanto, o afastava desse sonho, época em que mandava em Piancó o deputado Felizardo Leite, Padre Aristides e Antônio Moreira, todos os representantes do mestre.

Eleição de 1916. No momento em que foi votar Austreclino José de Oliveira, ao ser perguntado pelo presidente da mesa; - A quem pertence o seu voto? A resposta veio original, sem qualquer constrangimento, - "Sou brasileiro, sou eleitor, o voto é livre, voto com a legalidade do título e com minha consciência. A urna dirá". Por ser considerado algo inaceitável para época, o voto acabou sendo anulado. Quem venceu as eleições foi o Padre Aristides. Divulgou-se que talvez Austreclino José de Oliveira, teria votado no Padre, mas devido a sua criatividade não soube ao certo em quem ele votou.

por Hosmá Passos, o poeta de Piancó e pesquisador em educação há mais de cinco anos.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Loucura de Apaixonado

Devo iniciar minha história falando de Izídero, que a gente chamava Izídio.
 Parece que estou vendo. O corpo alvo de Izídio, nu da cintura pra cima; ou melhor, coberto com um lençol muito alvo. Nunca me disseram a idade de Izídio. Devia ter uns trinta anos.

 Pois bem. Conheci Izídio – meu primeiro amigo – acometido (ele) de alguma enfermidade e deitado numa cama. Não me diziam nada sobre a doença dele. Eu tinha, nessa época, uns quatro anos. A verdade é que Izídio estava ali apenas esperando a morte. Fora para Campina Grande extrair uma bala, mas os médicos não conseguiram. Duraria apenas, isso no máximo, dois meses.

 Nunca me contaram direito a história de Izídio; de modo que a que vou contar aqui deve ter muito da minha imaginação. Aliás, muitas das histórias que contarei neste folhetim que hoje inicio tem muito da minha imaginação. Fatos que a minha versão pode ter desvirtuado. Sou um sujeito assim. Às vezes acredito que ela aconteceu, então ela vira verdade na minha cabeça; vira uma nuvem que passa, ora nítida, ora distante.

 A história que ouvi sobre Izídio foi uma bonita história de amor. Digna de romance. Repito: a história é verdadeira. Se minha imaginação aumentar, é coisa pouca.

 Izídio namorava uma moça, lá em Piancó. Os pais e os irmãos dessa moça não queriam o namoro. Davam nela, amarravam-na no terreiro de casa, deixavam-na de castigo... Tudo isso para que ela acabasse aquela história de gostar de Izídio.

 Izídio resolvera, então, tirar a moça da cidade, fugir com ela até um sítio próximo, o que se chama lá no interior, roubar a moça. Tinha que receber uma lição. Os irmãos dela resolveram, então, ir buscá-la e tirá-la “na marra” de Izídio. Fortemente armados – não sei o número, mas eram muitos – investiram contra Izídio, que não quis entregar a moça. Em desvantagem, não cedeu, mas terminou perdendo a namorada e sendo baleado. Agora estava ali, naquele estado, inutilizado numa cama.

 Eu ia para ali, para a casa de Izídio, todas as noites, cantar. Ele adorava me ouvir cantando. Me admirava muito; me achava inteligente. Eu, inocente, não sabia na época, que Izídio iria morrer em tão pouco tempo. A história de Izídio deve ser transformada, depois, em livro, desta feita contada em mais detalhes. 

De modo que o primeiro episódio marcante da minha vida foi esse: Izídio, o meu primeiro amigo, morreu por amar demais uma mulher. O amor e a morte entraram, então, na minha vida, logo cedo, fazendo de mim um sentimental em excesso, um homem dado a paixões descontroladas, uma sensibilidade extrema, carregada de emoções à flor da pele.
 (Publicada no extinto jornal O NORTE)

Por João Trindade

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Seu Batista de Piancó


Artigo de Luciano Pires 

Em João Pessoa, depois de uma palestra, saí do hotel pouco antes do almoço, com voo programado para as 15:30. O taxi chegou, com um senhor à direção. Entrei e pedi:

- Tenho um voo dentro de três horas, quero que o senhor me leve até um restaurante. Mas tem que ter ar condicionado!

- Ah, aí é comigo mesmo! Não dispenso ar condicionado!

Ele me levou até o restaurante, distante três minutos do hotel. Como era cedo demais, pedi que me levasse para um passeio pela beira-mar antes de parar. E a surpresa aconteceu. Ele me contou sua história.

“Seu” João Batista nasceu em Piancó, distante 500 quilômetros de João Pessoa. A mãe, com vários filhos e sem companheiro, vivia “da roça”. Uma vida difícil e sem perspectivas. E ele me mostra o dedão deformado:

- É de debulhar grãos. Como eu era o mais novo, era esse o meu serviço. E o “doutor” sabe como é, carne mole... Meu dedão ficou assim.

Aos nove anos de idade, certo de que não havia perspectiva naquela vida ele esperou que sua mãe e irmãos mais velhos fossem para a roça, juntou suas coisinhas e fugiu de casa em direção à capital. Chegou a João Pessoa em 1959, depois de percorrer os 500 quilômetros a pé, no lombo de jegues e de carona. Chegou sozinho, no centro da cidade, para se tornar morador de rua, fazendo bicos e vivendo da caridade dos outros. Aos 17 anos apresentou-se para o exército: “Era minha obrigação.”

Como sabia dirigir, foi designado para um trabalho nobre: pilotar o trator que recolhia o lixo. Tratava o trator com carinho, lavava no final de semana, pintava e mantinha a máquina impecável. Até chamar a atenção de um capitão, que o convocou a seu gabinete e perguntou se ele gostaria de ser motorista de sua esposa. Sua resposta foi óbvia:

- Não tenho habilitação.

Ele era analfabeto... Mas isso não foi impedimento. O capitão providenciou uma habilitação especial do exército e ele tornou-se motorista da família por alguns anos. Nesse período, obteve a habilitação civil, sem ter que passar por exames e quando se apaixonou por uma “dona”, largou tudo e a seguiu para o Rio de Janeiro. Não se adaptou e voltou para João Pessoa, onde passou a trabalhar como motorista de caminhão. Teve seis mulheres e dez filhos e hoje, aos 62 anos de idade, é motorista de taxi em João Pessoa, onde mora sozinho, realizado e feliz.

- Doutor, conheço todo o Brasil e tenho amigos em toda parte, sabe por quê? Porque nunca vou tentar fazer parecer que sei mais que o senhor. Sei da minha ignorância e faço questão de ser humilde. To feliz, criei 10 filhos, amo meu trabalho e continuo fazendo amigos como o “doutor”.

Sob a perspectiva de onde ele saiu, que chances teria na vida e até onde chegou, seu Batista é um imenso sucesso. Sem riquezas, diplomas, títulos e frescuras, apenas trabalhando honestamente e abusando do maior atributo que a vida lhe deu: a humildade. “Seu” Batista é o oposto de tudo que se prega hoje sobre “ser bem sucedido”. Mas é irresistível.

Eu, o “doutor”, o palestrante, escritor, viajado, diplomado, ouvi atentamente, até mesmo emocionado, sua história e saí do taxi admirando aquela figura. E com seu cartão de visitas no bolso.

Seu Batista será meu guia sempre que eu for a João Pessoa.

Tenho muito a aprender com ele.

domingo, 15 de setembro de 2019

Piancó



Minha terra sem guerra
era a bodega de Nôzim
Era o Dé Aleijado
ouvindo o sax de Paizim

Era o governo do açude
querendo ser atitude
quando riacho é conselho
Era o ensaio em deleite
da banda do primo João leite
Servindo-me como espelho

Era o furor Beira Rio
Era o celeste arrepio
De disputar cada puta
Era um errar tão divino
Que começava em Dino 
e terminava em Xuxuta

Até a política, tinha outra crítica
outra estatística e outra maneira
tinha o bar de Beliza e a turma indecisa
Fez do cinema ladeira

Oh todas as colunas empreste
Com suas reticências
Montenegro ou outras tendências?
E a voz de Nitrozim anunciando assim
O féretro sairá das residências...

As seis horas Ave Maria 
E quando já era outro dia 
Eu caminhava elegante
Na loja de Eliezer
E lá no Anão Dedé
Bebia com Louro marchante

E quanta coisa maluca 
Aprendi em salão de sinuca
Com Jorge, Carão ou Puluca
Com Lula, Catrolha e com Fogoió
Tudo isso fez de mim um libelo
Em saber que depois do Marcelo
Ostento um fatal Piancó.

Marcelo Piancó

Obrigado minha terra e desculpe meus amigos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O Pistoleiro Luquinha




Luquinha foi o maior pistoleiro do Vale do Piancó e um dos maiores da Paraíba; quiça do Brasil.

Não se sabe, ao certo, o lugar em que ele nasceu. Uns dizem que foi em Aguiar; outros que em Boqueirão dos Cochos (hoje, Igaracy). Em qualquer das duas na qual tenha nascido, será, originariamente, de Piancó, porque ambas, na época do nascimento dele, pertenciam a Piancó.

Luquinha nunca foi preso. Isso gerou muitas lendas sobre ele: Que quando a polícia chegava ele se transformava em formiga; histórias de fugas espetaculares, em que fora cercado pela polícia numa casa, jogou um tamborete pela janela, atirou e saiu pela portas dos fundos... Enfim, histórias fantásticas e maravilhosas criada por um povo acostumado a criar fantasias, para enfrentar a realidade dura do sertão...

A verdade é que Luquinha, como tantos pistoleiro, era protegido e acoitado por donos de terras; grandes fazendeiros; daí, sempre se safar.


Luquinha... Que criança de Piancó não ouvia falar nele, em histórias contadas pelo pai (da criança)?
Luquinha, então, se multiplicou...


Não houve um só Luquinha; houve vários. Luquinha virou uma metonímia e hoje é parte da história da região.


(Essa crônica dedico ao meu amigo/parente/conterrâneo Marcello Piancó e ao também amigo do peito Francisco Pinto).


João Trindade 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

A Fome e o Desemprego



A fome ainda é um tema proibido. Desde o início da civilização que o tema fome é discutido, mas sem nenhuma solução efetiva. A agricultura poderia ser o meio mais eficaz para se combater este mal. Políticas públicas não são planejadas no âmbito do Município para se erradicar de uma vez por todo, o problema da fome. As secretarias de Ação Social, Saúde e Agricultura, poderiam muito bem, desenvolverem projetos neste sentido. Mas a ociosidade e o comodismo, não deixam as cabeças dos titulares destas pastas, pensarem. E o problema continua!

Cooperativas, Associações Comunitárias [Urbanas e rurais], organismos públicos e privados, as escolas; poderiam se organizar através de Simpósios, e ver se dali saia alguma idéia para se combater a fome.

O aproveitamento de muitos alimentos que tem em suas cascas a maior parte das vitaminas, não é aproveitado. Às vezes por desconhecimentos. Outras vezes por puro comodismo e “nojo”.

O SESI, o SENAI, são organismos que se dispõe a dar aulas de orientações de como aproveitar melhor os nossos alimentos. Porque não conveniar estas entidades a, por exemplos, CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas), Prefeitura, Câmara de Vereadores, e Casa de Cultura?

Nós nos acostumamos a reclamar. Mas são reclamações que não levam a nada. Mesmo porque, quando somos chamados a encampar lutas para o progresso de nossa terra, esquivamo-nos e dizemos que não temos tempo para tal prática.

Tivemos um exemplo bem há pouco tempo, que foi quando a ex-professora e micro-empresária Carminha Vicente Leite Ferreira [filha do saudoso Antonio Vicente e de dona Terezinha], que organizou um pequeno grupo de pessoas e formou uma entidade denominada “Nossa Terra Solidária.” Não teve muito êxito! Por quê? Por culpa de Carminha?

Não! A culpa foi nossa mesmo. Porque ela se dispôs a entregar o seu comércio a terceiros, para disponibilizar o seu pouco tempo, para ensinar as pessoas a fazerem RENDA. A famosa Renda Renascença. E os “urubus” de plantão, começaram a imaginar que ela estava ali para colher dividendos políticos.

O empresário e agropecuarista Enoque Leite Gomes [da Pães e Massas Finas e Fazenda “Santa Clara"]; também foi mau interpretado quando se entregou de corpo e alma na organização da Associação de Caprinos e Ovinos do Vale do Piancó [hoje desativada]. Acharam que ele queria ocupar espaços para enveredar pelo campo da política.

Por isso que as coisas não funcionam e a fome persiste em nossa cidade. E para acompanhar a fome, vem o desemprego que consome as mentes das pessoas, levando-as a depressões profundas. Ocasionando a inadimplência no comércio local. Desorganizando muitos projetos pessoais e destruindo o nosso Município, e muitos lares.

O que fazer, para solucionarmos de uma vez por todas estes males que nos corroem e que nos afligem?  Será que rezar é o suficiente?

Programas sociais poderiam amenizar a fome e o desemprego. O que faz hoje o Governo Federal não pode ser exemplo para tirar o nosso Município deste atraso. Teriam os governantes, que planejarem melhor uma ação para solucionar o problema, e não para escondê-lo. Sabemos que muitos de nós hoje estamos vivendo graças a estes projetos do governo federal. Mas depois que ele deixar o governo, como ficarão as pessoas que hoje estão cadastradas? O caos será maior, pois se os programas fossem no sentido de instruir as famílias para se sustentarem, através de hortas comunitárias, artesanatos, cursos técnicos, etc., isso poderia ser bem aceito.

Não é a toa que muitos eleitores aproveitam os períodos eleitorais para explorarem os candidatos pedindo-lhe tijolos, telhas, dentaduras, óculos, etc. Eles sabem que depois de eleitos, nada mais será feito para a população. E o problema da fome e do desemprego ainda será o nosso grande desafio para este século que se inicia.

Antonio Cabral

terça-feira, 21 de maio de 2019

Antônio Açôite



/Ainda menino afoito, entre os sete e oito anos, / 
/Conheci um “doido”, chamado Antônio Açoite. / 
/Hoje, para mim, era um lendário, um visionário. / 
/Mesmo assim, tinha medo, não dormia à noite. / 

/A minha mãe quando queria que eu fizesse algo/ 
/Dizia-me para eu cumprir e não deixar esquecido / 
/Senão chamaria Antônio Açoite para ele resolver. / 
/Então se instalava na minha cabeça um zumbido. / 

/Ele era um homem de estatura muito avantajada, / 
/Tratava a minha mãe como madrinha e devoção; / 
/Tinha na mão um cordão com a pedra amarrada, / 
/Seu brinquedo preferido que lhe causava emoção. / 

/Na minha rua, sempre passava no mesmo horário, / 
/E eu temerário, debaixo da cama esperava sua ida;/ 
/Não tinha outra saída, minha mãe muito atenciosa/ 
/O admirava e o respeitava, entendendo a sua vida. / 


João Pessoa, 03 de março de 2019 – 09h22min. 

José Ventura Filho

sábado, 6 de abril de 2019

De volta às águas do Rio Piancó



Até que enfim chegou um pouco de água no nosso rio Piancó, hoje tão cansado de tanta espera e aflição. É de dar dó... 

Ainda não cheio, de barreia a barreira, mas espero que em breve ocorra esse momento mágico e necessário, porque só assim as boas lembranças virão à tona, detonando a pulsação da emoção e do grito de esperança guardada por um povo trabalhador, humilde e honesto, mas sofrido e desassistido...

Embora esteja na ausência do seu corpo físico, tão bem desenhado pelas curvas geográficas, tendo sua origem lá na Serra Dona Inês, em Conceição-PB e o seu destino final nos braços do açude de Coremas-PB, descortinarei o véu da alegria e da nostalgia, reclamado há muito tempo dentro de mim...

Suas águas eram remédios para cicatrizar as mágoas dos dias escaldantes, gritando pela salvação da sede provocada nas casas desprovidas, nas plantações sofridas e nos animais raquíticos demais...

O banho puro naquelas águas tão lindas não tinha preço, nem endereço de perdição. Era simplesmente um lugar fértil de criação ofertado pelo mundo subjetivo e vivido de uma criança, sem qualquer apego às coisas materiais... 

O amanhecer era o convite desejado por todos os seus visitantes para caírem nos braços da sonoridade e da beleza estonteante na leveza da sua correnteza... 

As folhas verdejantes das árvores seculares, sopradas incansavelmente pelo vento, comunicava a chegada daquele evento memorável... As suas sombras acolhiam o descanso do guerreiro extasiado de prazer... 

Os cantos dos passarinhos em notas breves e suaves entoavam as mais perfeitas melodias, adornando aquele espaço fantástico...

Os animais rasteiros se acasalavam, correndo sem direção pela ribanceira, em busca de suas presas ou fugindo das mãos certeiras dos seus algozes... 

Os diversos peixes saltitavam sem compromissos e sem previsão do perigo iminente...

As sereias, sem donos, naquelas areias transparentes, eram fotografadas pelos olhos estupefatos e pidões... 

O pôr do sol acobertava o sussurro profundo da efêmera felicidade... E a velocidade das horas anunciava, inesperadamente, no ouvido da reclamação a implacável quebra de toda aquela magia. Era o pior castigo sentenciado pela mão do tempo, filho da mãe- natureza... 

Assim, afogado em lágrimas de saudade que caem freneticamente dos meus olhos, procuro em meus sonhos voltar às águas puras do meu rio Piancó.

José Ventura Filho

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O VELHO PIANCÓ

  
Refrão:
É de fazer pena
É de fazer dó
Os políticos afundaram
A cidade de Piancó


A maioria das ruas/tem nome de caneiros
Aprovado pela Câmara/porque são interesseiros!
Quando chega a eleição/é aquele desespero/trocando o eleitor/
Por cimento e por dinheiro


Piancó tinha cinema,/acho que você se lembra.
Um campo de aviação/esse foi para o Japão.
Uma usina de reciclagem./ Ta dentro do matagal
Tinha uma tecelagem,/essa não existe mais
Tinha uma Cibrasém/essa foi para o além
Bradesco e Caixa Econômica/isso ninguém mais encontra


A receita Federal/tá de Patos a Pombal
A usina de algodão/hoje é forró do pueirão
Os vereadores assinaram/um projeto outro dia
Esse foi lascando o pobre/com o talão de energia
Tirando da mesa deles/o pão de cada dia
A eleição se aproxima/eu não sei qual é o dia
A Câmara de vereadores/essa parece um metrô
Não faz nada pelo pobre/nem fala nem da valor


Tinha Basto do motor/com uma vara na mão
Acendia a luz da cidade/pra não ter escuridão
Já passou 50 anos/Piancó não mudou nada
Agora entrou João Bingo/com outra vara na mão
Acende a luz da cidade/pra toda população
Você só ver promessa/quando chega à eleição


Acabou a Cooperativa/IBGE e Funrural/onde o velho aposentava
O diretor era Joval
Acabou a Banda de Música/o Cabaçal ficou atrás
O que tinha em Piancó/você morre e não ver mais


Vou encerrar/,que minha saudação desejada
Do amigo Nêgo Lula/que faz da vida piada
Onde está parece um circo/só se ouvem as gargalhadas
E na mesa de um bar/é o rei da presepada.


Nêgo Lula


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

Em 2001 editei uma publicação intitulada “ALGUNS DADOS SOBRE PIANCÓ”, me baseando em depoimentos do saudoso Mestre Eurides e da Professora Joanita escrevi este texto. Hoje Piancó está em festa e achei conveniente publicar tal ensaio.


NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

O DIA ANTERIOR


Era anoitecer do dia oito de fevereiro de 1926 em Piancó. Quase cessando o movimento de pessoas nas ruas da Vila. Dúvida e apreensão absolutas pairavam na mente de todos. Ao longe os cães latiam anunciando a chegada de um estranho ou a partida de seu dono.

Na sala principal da casa grande, residência do Padre e família, os mosquitos circulavam a luz que iluminava o ambiente tenso. Sentados em círculo, o Prefeito João Lacerda, seu filho Osvaldo Lacerda, Manoel Clementino, escrivão do então Distrito de Aguiar, Hostilio Gambarra, distribuidor em juízo, Pedro Inácio Liberalino, José Ferreira e o Padre Aristides Ferreira da Cruz. Falava-se pouco, sempre conversas entrecortadas, nunca um diálogo demorado. Entra na sala uma senhora de aspecto servil e em silêncio, distribui café e chá aos presentes. Era D. Quita, senhora de Padre e mãe de seus quatro filhos então adolescentes: Jorge, Sebastião, Aristides e Juanita.

Novamente a sós, o silêncio imperava. Aqui, acolá uma frase curta. Todos sabiam do risco de continuar na cidade. O mais sensato seria procurar sair em busca de proteção, mas longe de tentar convencer o Padre dessa ideia.

Logo um alvoroço, uma agitação e entra alguém informando a chegada do cachorro de estimação do senhor José Maria, irmão de D. Quita, e que residia em Coremas. Todos quiseram saber quem o cachorro acompanha. O temor aumentou quando se soube que este havia aparecido sozinho.

Alguém devia estar chegando do vizinho município, por onde a Coluna de revoltosos teria passado naquela manhã.

As horas avançavam feito chamas. Logo chegaria o momento da despedida, das recomendações e do adeus. Estava já acertado, D. Quita, os filhos e os empregados deixariam a casa logo mais, permaneceriam o Padre mais alguns amigos, na manhã seguinte, outros que também resistiriam estavam sendo aguardados.

Em meio a agitação gerada em torno da chegada do cachorro, surge à porta um jovem, apressado, e pede a presença do Padre, uma vez atendido, o mensageiro se identificou e entregou ao Padre um envelope meio amassado e úmido de suor, com um escrito que dizia: “Não tente resistir, é uma ideia absurda. Passa de mil homens com armamento e disposição, alguns até com aparente falta de disciplina. Desde a manhã de hoje Coremas foi invadida por um exército de guerrilheiros desalmados, cruéis”.

A sala se encheu rapidamente, todos apreensivos fitavam o Padre, no seu rosto uma nítida expressão de tristeza. Ele sabia, todos mais uma vez tentariam convencê-lo a deixar a cidade, agora com argumentos mais sensatos. A aflição do Padre poderia ser notada também no semblante desolado de D. Quita e dos filhos. Todos temiam o pior. O Padre estava dominado por uma sensação de impotência. A ideia de abandonar a cidade não era nada honroso para um chefe político na sua envergadura. Dúvida cruel. Enquanto o seu orgulho de homem público e de defensor do povo e da cidade, forçavam-no a ficar, uma porção de medo de perder Quita e os filhos, levava-o apensar na possibilidade de fugir.

Os amigos foram unânimes. O Padre devia sair com a família, deixasse um grupo de homens de confiança protegendo a cidade. E instantes depois o Padre consentiu em acompanhar os seus familiares a uma fazenda distante, até os revoltosos saírem de Piancó. O temor da separação deu lugar a agitação da arrumação dos objetos que levariam na viagem. Já havia alegria entre os presentes na casa grande. As carroças e os animais que seriam usados no transporte da família foram conduzidos até a porta da frente.

Um levava, o outro trazia, um dizia, outro escutava, mas, o Padre continuava pensativo, distante dalí, alheio ao que se falava na vasta sala, pelas janelas fronteiriças seu olhar vagueava o mundo à fora. O “tigre” acuado em sua morada. Recordou a hecatombe de 1922, fazia quatro anos, teve que fugir e buscar junto ao Presidente Epitácio Pessoa, seu chefe, proteção para voltar a assumir o poder no munícipio, foi a mais cruenta e desastrosa contenda com a família Leite. Agora teria que fugir de novo. E o telegrama do Governador João Suassuna? Era a oportunidade ideal de conquistar a simpatia do governante, que por sua vez demonstrava mais aproximação com os seus inimigos políticos. Não podia também decepcionar a população local, deixando que os seus bens fossem saqueados e destruídos.

Há instantes da partida, voltou atrás e mudou de ideia. bateu o pé e não saiu além da calçada para despedir-se da família. Era esperada uma reação de descontentamento dos amigos, o que se deu certamente, mas não convenceu e o Padre ficou.


Antonio Francisco

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