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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

POR QUE SOU PIANCOENSE?


Primeiramente, porque nasci e ali desfrutei da sombra; do sol; das tardes; das manhãs; das noites e de todos os momentos oferecidos pelos dias dessa cidade rica de sabores e de amores puros, presentes nas mentes quentes de um povo tão acolhedor, independentemente da situação de cada pessoa.   
Cresci vendo e sentindo a seca e os horrores de suas causas; os conflitos das casas e as suas dificuldades... Cresci estudando em colégios de ricos e de pobres, onde não existia tal diferença e lacuna... As freiras eram testemunhas daqueles ensinamentos... Seu Cirilo e dona Rosa, que moravam na lateral do Colégio Santo Antônio, fabricavam as hóstias paras as missas naquele educandário... O que se levava em conta eram a tradição, o conceito e a harmonia linear, seguidos entre todos que ali desfrutavam aquele prazeroso ciclo de vida... Tudo tinha uma harmonia natural... Não existiam subterfúgio nem interesse político selvagem... 
Meus pais são: José Ventura de Souza, alfaiate, Joana Lúcio Ventura, professora. Os segredos, além das roupas, eram confiados ao meu pai, que os ouvia, dando o devido conselho. Hoje, ele é esquecido por alguns, mas lembrado por outros.  Minha mãe foi professora do Colégio Ademar Leite e do Grupo Alto Belo Horizonte... Era detentora do futuro das crianças e dos jovens que a procuravam recebendo dos seus ensinamentos os conhecimentos para o sustentáculo de uma base sólida de um futuro promissor... 
Conheci o Rio Piancó e o Riacho do Conselho, durante as cheias do inverno, quando enchia e molhava, com intensidade, os campos; as ruas e os mananciais, complemento da felicidade da minha infância e adolescência... 
Aprendi a nadar, em cima de uma caixa de isopor, no açude de Neco Moreira, próximo ao Rio Piancó e a propriedade de Leonel, aquele que tinha um “caroço” nas costas, onde tinha maravilhosos pés de mangas que mangavam, antecipadamente, do meu futuro... Quantos caminhos percorridos em sua direção! Quantas corridas de camisa e alpargatas nas mãos pelos córregos e caminhos espinhosos, sem direção!  
No meio daquela caminhada, cheia de aventuras, sentia o cheiro das frutas; ouvia os sons de passarinhos, brincando pelos galhos e pelos ninhos... Via as cobras e os calangos se arrastando pelo chão; os animais no pasto; as crianças de pés descalços, brincado de futebol no meio da rua; o voleibol; o de bola de gude; as brincadeiras de pião; de carros de flandres; de notas de cigarros; de pipa; de pião; de bicicleta; de bizuri; de bandeirinha e de outras entretenimentos que nos separavam do mundo real, além das prosas prazerosas...
Ali, eu crescia e via as brigas de galos; de canários; via os bêbados nos finais de feira cambaleando e se apoiando no muro da lateral do Colégio Santo Antônio, vizinho à minha residência, querendo chegar ao destino final; ouvia os rezadores, quando alguém os procurava para curar a doença do seu filho ou de alguém da família; a descobrir o autor de algum roubo praticado ou a causa de um incêndio acontecido; ouvia a melodia mais linda vinda das cantorias e dos aboios; as experiências e as histórias fantasiosas, regadas pelas as de lobisomens, entre outras, contadas pelos “asilados”(estudantes; engenheiros; médicos; professores; agricultores, entre outros), na alfaiataria do meu pai, quando eu ainda era menino, deitado em cima daquela mesa cheia de retalhos de panos e do cheiro do ferro quente na almofada que servia de travesseiro para minha cabeça, embalando os meus sonhos de um dia ser vaqueiro... 
As músicas de outrora eram lindas e continuam, até hoje, me dando profunda emoção, principalmente as tocadas pelas orquestras nos grandes carnavais, comandadas por Mestre Elizeu; Nêgo Lula e outros donos daqueles dons ofertados por Deus; na Festa de Santo Antônio e nas ocasiões dos bailes realizados no Piancó Clube.
Do Parque de Seu Lima, quando da sua chegada nos festejos da festa do padroeiro de Santo Antônio, no mês de junho? Era uma só alegria... Namorados de mãos dadas desfrutando das missas e das carícias inocentes, vivenciadas nos cantinhos escuros das árvores na Praça Salviano Leite... Das músicas tocadas na rádio difusora, comandada por Asuélio, conhecido por Nitrozim, entre elas, a Praça, cantada por Ronnie Von, eternizando aqueles momentos? E o possível pecado ou culpa eram resolvidos com orações nas quermesses realizadas na Igreja Velha ou quando das missões de Frei Damião.  
Quem não se lembra do velho Macena? Aquele que participou da Coluna Prestes em 26 de fevereiro de 1926, quando foi assassinado o Padre Aristides. Foi ele, com aquela mão e dedos enrugados pelas balas e pelo tempo, que me ensinou, quando eu tinha 12 anos de idade, a comprar carne e a fazer a feira para minha casa... 
De Severino Ventura, meu tio, embora não formado, que construiu várias casas, até mesmo a cadeia pública de Piancó e de outras construções em Brasília-DF, assombrando os arquitetos e engenheiros daquele lugar? 
Dos barbeiros: Santo; Antônio Palmeira e Antônio Sabino, que cortavam os nossos cabelos pretos, hoje pintados de brancos pelas nossas lembranças e práticas de vida? 
Certo dia, minha mãe me deu dinheiro para cortar o cabelo e, desviando o caminho e o objetivo, juntamente com o meu primo Diô, fomos comer pão doce com refrigerante “fanta”, na época, de vasilhame de vidro, na “bodega” do Seu Plínio Ventura, primo do meu pai... Foi tanto barulho e aflição... Castigos e surras serviram de lição e de presenças curiosas marcantes pelos meus primos e familiares... 
E da sorveteira de Dino, em que os sorvetes molhavam as nossas roupas e os nossos desejos em chegar logo o horário da festa lá no Piancó-Clube ou no Bope? 
E das ruas: a Mascarenhas de Morais, que não esqueço jamais; a Rua Velha; a Rua Nova e as demais que faziam parte dos acontecimentos únicos de cada episódio? 
Pessoas sentadas nas calçadas debulhando conversas, fofocas e risos, enquanto outras ouviam pelo rádio a “Hora do Brasil” ou narração de jogo de futebol... 
E o Mercado Público? Dono de todas as atividades comerciais que soletrava, em especial, às segundas-feiras, com o ganha-pão de cada um, onde constava o peixe nas calçadas de Dona Porcina; as redes de dormir e de pescar; as frutas; as verduras; os cereais; as alpargatas; os tecidos; os perfumes; as panelas de alumínios; os condimentos; os alimentos; os produtos defensivos e agroindustriais; as gaiolas; os pássaros; as galinhas; os perus; porcos e outras caças; o açougue, com o piso todo enlameado da salmoura advindo da carne e os cachorros  farejando aquele local.  E no final um tiro ou um corre-corre, provocado por uma discussão sem futuro, no escurecer do beco da padaria de Justino Leite.
Lembro-me de Raimundo Gervásio, colega de infância, que não conhecia a cidade de Campina Grande, mas não tinha condições de visitá-la. Certo dia de feira, correndo com Nerivaldo Badú pelas calçadas daquele logradouro, ele, escorregou em uma casca de banana e, então, teve que se deslocar para aquela cidade, a fim de ali se submeter a uma cirurgia no braço. Chegou feliz em Piancó, porque atingira seu objetivo, ou seja, ter conhecido Campina Grande, embora com o braço enfaixado. 
Das peladas de futsal na quadra do Colégio Normal Santo Antônio e do Piancó-Clube; do futebol de campo nos Oitis; ao lado da Igreja do Rozário e no “Granitão”?
Dos “cabarés”, distribuídos pelos cantos escondidos da cidade para atender aos reclames recolhidos da jovialidade e da fragilidade daqueles errantes?  
E das autoridades que nos provocavam respeito; admiração e até medo? Entre elas: padre; prefeitos; médicos; delegados, e demais personagens que não dá para nominá-las.  
Nunca tive vontade de sair de Piancó, mas as condições e as oportunidades não me favoreceram. Fui impulsionado a encontrar uma outra situação de vida, assim como outros que aqui estão e passaram pela mesma situação. 
Hoje, distante da minha cidade, a cada dia me aproximo mais dela, através das minhas lembranças que as transfiro para os meus escritos; das notícias dos conterrâneos; dos sites e dos blogs, espalhados em todo Estado, que afloram, ainda mais, o meu âmago e a minha força positiva para com os piancoenses que ali residem; resistem e lutam contra as intempéries naturais e os planos ou projetos nocivos, impregnados; injustiçados; desenfreados e aliciados por um poder ou sistema político totalmente descompromissado com as nossas raízes e/ ou causas culturais, econômicas-financeiras e sociais.
Sempre acredito e respiro a esperança de que um dia o nosso povo não se deixará enganar por uma dose de ajuda ou um respingo de promessa de um paliativo qualquer, para que possa enxergar e lutar em busca de uma vida digna.
Em qualquer local, sou muito feliz em ser piancoense natural, mesmo distante fisicamente. Por isso, digo que Piancó está sempre presente no meu coração e na minha mente! 


José Ventura Filho

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

PADRE MANOEL OTAVIANO




Padre Manoel Otaviano de Moura Lima, para todos simplesmente Padre Otaviano, foi o que de melhor Santa Maria, hoje Ibiara, poderia ter dado a Piancó. Ordenado há pouco tempo no Seminário de Teresina, Capital do Piauí, chegou a Piancó nos idos do ano de 1912, para substituir, como Pároco, o Padre Aristides Ferreira da Cruz, que fôra afastado das funções e suspenso de órdens pelo Arcebispo Dom Adauto, como castigo por suas querelas políticas com o D.r Felizardo Leite, Deputado Federal e chefe político prestigiado da região.
O talento de Padre Otaviano dispensa apresentação mais profunda, imortalizado que se encontra na sua produção literária, em obras como “Mestre Mundo” (teatro), “Emboscadas do Destino“, “Tomaz Cajueiro“, e “Chefe Político” (romances), “Inácio da Catingueira” (conferência e ensaio literário sôbre o maior cantador da Paraíba e do Nordeste), e “Os Mártires do Piancó” – e não A Coluna Prestes na Paraíba, como criminosamente o rebatizaram em reedição infeliz – , relato magistral da resistência épica dos piancoenses à passagem daquela brava Coluna Militar pela cidade, a 9 de Fevereiro do ano de 1926. Citei, aqui, os livros do notável sacerdote, escritor e brilhante orador sacro, porque o episódio a ser narrado liga-se, diretamente, à sua obra “O Chefe Político“, que, como estudo sócio-político do nordeste, é muito mais substancioso que outros, fartamente idolatrado pela análise passional.
Mas vamos ao episódio, que êste libreto pretende, apenas narrar os fatos pitorêscos e reais ocorridos no “Velho Guerreiro“.
O Padre Otaviano entregara ao Deputado Federal Drault Ernany, que prometera reeditar o seu romance, os originais de “O Chefe Político“, considerado pela crítica especializada como sua obra-prima. Correu o tempo, e o representante paraibano junto à Baixa Câmara do Congresso Nacional emudeceu, por completo, apesar das reiteradas cobranças do Sacerdote escritor.
Chegou o ano de 1962 e, com êle, mais uma festa do glorioso Santo Antônio, padroeiro do município, celebrada na primeira quinzena do mês de Junho. Como era ano de eleição para renovação do Congresso Nacional e de Assembléias Estaduais, além do D.r Salviano Leite, filho da terra e Presidente do Consêlho Superior das Caixas Econômicas Federais, e do Senador Ruy Carneiro, que nunca deixaram de assisti-la, a cidade encheu-se de outros políticos que caçavam votos para alcançar um mandato ou uma renovação. Também foi demonstrar a sua devoção o Deputado Drault Ernany, que postulava sua reeleição e há tempos sumira daquelas plagas.
Após a procissão, foi jantar entre outros, na residência de dona Chiquinha Leite, genitora do D.r Salviano, o Deputado Drault Ernany. Lá encontrava-se, também, o Padre Otaviano, como amigo dileto da família e freqüentador assíduo da casa. Aproveitando o encontro, o Padre cobrou ao Deputado a promessa que êste lhe fizera de reeditar o seu livro. O Deputado, sem jeito, tentou justificar:
— Padre, o senhor vai me perdoar, mas perdi os originais do seu romance.
O Padre Otaviano, perplexo, sem querer acreditar no que ouvia, pulou da cadeira de balanço em que se encontrava, como que impulsionado por mola invisível, e atacou:
— Você é um irresponsável, Drault!
— Não, Padre…
— Um irresponsável, sim. Um livro, Drault, é um filho. Nasce das entranhas. Você não compreende isso porque é uma toupeira.
O Deputado Drault Ernany avermelhou, também se levantou de sua cadeira, qual fôsse agredir o ministro de Deus, que permanecia de dedo em riste a invectivá-lo. Os presentes intervieram, contornando o incidente. Serenado o constrangimento, o Deputado ainda tentou justificar a sua inconseqüência:
— Padre, sei que a minha negligência foi imperdoável. Porém, para compensá-lo, trouxe-lhe de presente do Velho Mundo, uma verdadeira relíquia. Como o senhor sabe, fui à Europa e, na minha passagem por Roma, conseguí uma audiência com o Santo Padre. Disse, então, à Sua Santidade, que desejava trazer êste têrço para o senhor, narrando-lhe as suas virtudes e o seu incansável trabalho de evangelização nêstes sertões inóspitos, durante meio século. Aqui está a relíquia (o têrço), que foi bento por Sua Santidade, especialmente para o senhor.
O Padre, cuja fúria não se acalmara de todo, levantou-se, novamente, da cadeira e disparou:
— Drault, você não me consola com isso, não. Essa porcaria eu também benzo e tem o mesmo valor.
E tinha mesmo!


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

MANOEL ROSALINA





Manoel Rosalina era o mestre da Banda de Música de Piancó. Bom músico de piston, era casado mas louco por um rabo de saia.
Júlia Barbosa, morena fogosa e que ostentava traços de mulher sedutora, era “tata“, isto é, pronunciava as palavras com dificuldade, de forma que, às vezes, as tornava ininteligíveis.
Pois bem, Manoel apaixonou-se pela morena, inciando com ela um romance, que era aceito sem discussões pela esposa de Manoel. O “mestre” passou a ser, então, para Júlia, o inigualável, o melhor músico da terra, porque assim raciocinava Júlia quando se apaixonava. O mesmo raciocínio formulou quando se apaixonou por um alfaiate, que, por sinal, era uma extraordinária vocação da arte da tesoura.
Um dia, Manoel Rosalina foi destituído do comando da Filarmônica Santo Antônio, que era mantida pela Prefeitura Municipal, mercê de um movimento que os componentes da Banda encetaram junto ao Prefeito, cujas razões são inteiramente dispensáveis comentar, aqui. Entregue a regência a outro músico inteligente, Júlia logo demonstrou o seu despeito e a sua revolta pela demissão do seu amor. E, em tôdas as ocasiões que se lhe apresentavam, externava o amargor contra o “ato iníquo“. E as pessoas, para a perriarem, louvavam a harmonia da filarmônica, sob a batuta do novo mestre.
Certa manhãzinha, quando a banda desfilava pelas ruas, tocando alvorada da festa de Santo Antônio, padroeiro da cidade, pessoas que se dirigiam ao rio para apanharem água nas cacimbas, disseram para alfinetar Júlia:
— Agora, sim, dá-se gosto ouvir a banda com o novo mestre…
A reação de Júlia foi imediata:
— Quia nada. Banda só no tempo de Mané. Agora, acabou-se bandão…
E soltou um suspiro inebriado de amor…



PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

 

MANOEL JUREMA




Manoel Tomaz, conhecido como Manoel “Jurema“, por haver nascido e sido criado na Fazenda Jurema do D.r Tiburtino Leite, transmitida depois ao seu filho D.r Djalma Leite, era um preto velho inteligente e dono de uma verve irresistível. Com acentuada veia poética, encantava a todos com os seus improvisos e as suas lôas hilariantes.
Perambulava ele entre Ôlho d’Água e Piancó, já dominado pelo vício da aguardente, esbanjando o dom que Deus lhe dera, perdulàriamente. Vivia, já, da ajuda dos que se divertiam com as suas tiradas formidáveis, comendo e bebendo às custas daqueles que lhe admiravam a presença de espírito incomum.
José J. de Melo, ainda hoje vivendo no Piancó, por sua estatura diminuta, tinha a alcunha de “Zezinho Tamborete“, é homem trabalhador, valente e detesta o apelido. Foi bodegueiro  durante muitos anos, de cujo pequeno comércio tirava a sua e a subsistência da família com honradez e sacrifício. A par dessas qualidades, possuía irresistível fraco pela poesia popular, não podendo ver um improvisador que lhe não fosse logo pedindo para entoar uma lôa.
Certa manhã, pervagava Jurema pelo comércio à procura de matar a sua “sêde“, pois acordara de ressaca e estava ansioso para “tirá-la“. Lembrando-se de que Zezinho Tamborete era “fan” incondicional do cordel, dirigiu-se até à sua mercearia na certeza de que satisfaria o vício, que mais tarde levá-lo-ia desta para a “melhor“. Em lá chegando, foi logo pedindo:
— Zezinho, bote um “oito” de cana p’ra mim.
O bodegueiro, que já sabia o poeta estar liso, como de costume, retrucou:
— Cante uma lôa, Jurema, que boto o “oito“.
O preto velho inteligente, macaco escolado que não botava a mão em cumbuca, redarguiu:
— Bote primeiro o “oito“, que depois eu tiro a lôa.
Zezinho rendeu-se e encheu o copo de aguardente, dando-o ao vate popular, que o sorveu de um hausto só. Respirou profundo, estalou a língua e disse:
— Aí vai a lôa, Zezinho:
Deus quando fez o mundo,
         Fez o grilo e o gafanhoto
         P’ra puxar gado ligeiro,
         Deixou meu braço canhoto.
         Também fez home pequeno
         P’ra cheirá o cu dos outo.
Não é necessário dizer que Jurema foi escorraçado da bodega debaixo de “tamboretadas“.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)


 

MAJOR RAIMUNDO DE PAULA


O velho Raimundo de Paula e Silva, meu parente ainda, era abastado proprietário e fazendeiro no município de Nova Olinda, antigo distrito de Piancó. Também possuía propriedades neste último. Homem de coração largo e gestos francos, nunca, porém, conseguiu pronunciar as palavras corretamente, apesar de, como observava minha avó paterna, sua grande amiga, conviver com pessoas de nível médio e superior, gente de boa cultura humanística e científica. Era empedernido, mesmo, o velho, no assassinar “a última flor do Lácio, inculta e bela“.
Para ilustrar o seu temperamento folgazão e pródigo, relatarei um episódio ocorrido no meu tempo de ginasiano, na cidade de Patos.
Corria o ano de 1944 e vivíamos a festa de Nossa Senhora da Guía, padroeira do próspero burgo sertanejo, celebrada no mês de Setembro de cada ano, como hoje, porém já sem o esplendor daqueles tempos. O nosso Diretor, P.e Manoel Vieira, ou P.e Vieira para os seus alunos, encontrava-se, nesse período, no Rio de Janeiro, participando de um Congresso de Diretores de Ginásios e Colégios, convocado pelo Ministério da Educação. Passou, por lá, cerca de um mês, deixando o Prof. Manoel de Sousa Oliveira com a responsabilidade da direção do Ginásio.
O Prof. Oliveira é uma figura humana extraordinária. Estimadíssimo dos seus alunos, caracterizava-se por sua sapiência e liberalidade de espírito. Estabeleceu o horário para os internos freqüentarem as barracas, determinando a volta ao internato nos seguintes moldes: menores, às onze horas da noite; e médios e maiores, ao término. Era uma inovação que agradou sobremaneira a todos, contrariando apenas a “don Pedro“, bedel-mor do internato e chefe dos demais “atalaias“, como pejorativamente os batizamos. “Don Pedro“, que não simpatizava muito com o Prof. Oliveira, nem se conformava em tê-lo como superior hierárquico, pois ambicionava o comando, diariamente telegrafava ao P.e Vieira inventando coisas e procurando denegrir o Prof. Oliveira. As tramas de “don Pedro“, no entanto, resultavam negativas para ele e nos favoreciam, vez que, a cada aleivosia por ele engendrada, o prof. Oliveira mais democratizava o rígido regime do internato.
Uma noite, saímos Eu, Walter Braga e Zé Ferreira Lima em demanda das barracas e demos um balanço no capital, para podermos freqüentá-las sem maiores constrangimentos. Somamos, os três, uns trinta e cinco mil réis, o que daria para umas quatro “Teuthônias” e alguns pedaços de galinha, restando alguns trocados para a noite seguinte, que seria a última da festa.
Ao chegarmos à r. Solon de Lucena, que era o local onde se instalavam os pavilhões, em frente à Sorveteria Iracema, deparamo-nos com o Major Raimundo, como sempre elegantemente trajado no seu terno branco, de linho irlandês HJ, chapéu de palhinha chileno e sapato de duas côres, branca e marrom. Cumprimentamo-nos efusivamente, tendo-lhe eu apresentado os meus dois colegas e queridos amigos.
— Ah, jovens – disse o major – além de amigos de Felizardo, seus pais são meus amigos também, e vocês ficam fazendo parte da amizade.
Depois de um breve diálogo, indagou-me ele:
— Tem dinheiro p’ra festa, Felizardo?
— Tenho, sim, major – respondi-lhe.
— Tem nada. Já viu estudante ter dinheiro. Tome aqui.
E tirando a carteira do bolso interno do paletó, deu uma cédula de duzentos mil réis, que significavam uma verdadeira fortuna para três estudantes lisos.
— Estou ali na barraca, e vocês vão p’ra minha mesa – arrematou ele.
Evoquei o episódio tão só para identificar o coração franco e magnânimo do velho fazendeiro piancoense.
Como já disse antes, o major Raimundo era fértil em disparates, em virtude de sua incapacidade para pronunciar, corretamente, as palavras e assimilar o seu significado.
Nos meus tempos de infância, estava em voga uma gíria muito usada em relação às mulheres bonitas. Quando a moça era realmente bela e se indagava “que diz de fulana“, o elogio máximo à sua beleza deslumbrante era: “um paquete“.
Para os que não sabem, “paquete” era o nome dado aos navios de luxo, aos grandes transatlânticos que cruzavam os mares, conduzindo milionários da Europa e Estados Unidos nas suas viagens pelos continentes. Verdadeiras cidades flutuantes.
Certa vez, o D.r Djalma Leite, que clinicava por esses tempos no Estado do Ceará, veio visitar a família, acompanhado da namorada e de uma amiga desta, uma balzaqueana simpática e fornida de carnes, nada desprezível. Hospedaram-se em casa da velha Doninha, avó do jovem médico e do escrevinhador dêsses episódios, a qual era matriarca da família.
O velho Raimundo de Paula, viúvo e suspirando por novo matrimônio, atirou-se à balzaqueana com todo o seu palavreado ininteligível, na esperança de conquistar-lhe o coração. E dizia-lhe em momento de “rara inspiração“: “menina, você é um ‘piquete’“, em lugar de paquete. Nesse instante, entra na sala, onde conversavam as moças, a dona da casa e o velho fazendeiro, Zuca Teotônio, genro de D. Doninha. Sentindo o constrangimento da moça, Zuca interrompeu a palestra e interpelou o major Raimundo, conduzindo a conversa para um assunto que ele conhecia profundamente, e que interessava a todo proprietário no sertão:
— Então, Raimundo, você que vem de Campina Grande, dê notícias do algodão (do preço).
O velho, com a autoridade de produtor e exportador, saiu-se com esta:
— Você sabe, Zuca, que o argodão é o termomo mundiá fos fenomo do Brasí.
Zuca, naturalmente, deixou que o apaixonado prosseguisse com os seus ditirambos amorosos.
x x x
Talvez o único piancoense, além de Conrado Gerônimo, a se submeter a exame pré-nupcial, haja sido o major Raimundo de Paula. No início da década de cinqüenta, contraiu ele novas núpcias. Antes do casamento e a convite de uma sobrinha, Antônia, casada com o D.r Fernando Rodrigues e que residia no Rio de Janeiro, pegou um Constellation no Recife, desembarcando na “Cidade Maravilhosa“, e ali realizou todos os exames necessários.
No seu regresso, demorou-se uns dois dias na capital pernambucana, onde eu fazia o meu curso de direito.
Abílio Leite Rodrigues, meu primo, sobrinho, por afinidade, do querido major e que cursava medicina, telefonou-me avisando-me: “Felizardo, tio Raimundo voltou hoje do Rio e está hospedado no Hotel Avenida. Vamos jantar com ele, hoje“.
A notícia era um verdadeiro presente dos céus para quem residia em pensões e na Casa do Estudante. Combinamos, e às sete horas da noite nos dirigimos ao apartamento do nosso querido parente, que já nos aguardava envergando vistoso terno de casemira azul, talhada em uma das mais tradicionais casas do ramo da antiga Capital da República. Descemos ao restaurante (à época dizia-se refeitório) e nos deliciamos com lauto jantar, regado com o legítimo Vinho do Pôrto.
Terminada a refeição, o major Raimundo indagou do garçon quais as sobremesas servidas, obtendo a resposta: “Compota de goiaba, de pêssego, de figo, de caju e… manjar do céu“.
— Ah! – Suspirou o inesquecível fazendeiro – Traga manjar do céu para mim, pois tudo que vem do céu é bom.
Quando o garçon trouxe a sobremesa solicitada, o major Raimundo espantou-se e disse:
— Garçon, isso é que é manjar do céu?
— É, sim, senhor. Por quê o senhor pergunta?
E o major, com gravidade:
— Porquê, garçon, isso, na minha terra, se chama “purdim“.
E assim morreu o nosso estimado e nunca assaz lembrado Major Raimundo de Paula e Silva, sem jamais familiarizar-se com a prosódia e a sintaxe.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

MAJOR BATISTA



De São José do Egito, Pernambuco, veio, nas primeiras décadas do século, para Piancó, João Batista Vieira de Melo (“Major Batista” ou, ainda, “Major Batistinha“, na intimidade), moço ainda, fixando-se, no “velho guerreiro“, até a sua ida para o céu. Posteriormente, um filho seu, Fernando, também emigrou para Piancó, onde constituiria família, casando-se com Rita Lima, filha do Capitão João Leite Lima, Tabelião do 1º Ofício da Comarca, a quem o genro sucedeu o ofício judicial. Fernando contrairia segundas núpcias com Dalva Lima de Azevedo, após o falecimento de sua primeira esposa.
O Major Batista, além das qualidades morais que dignificam o homem, era dotado de inteligência singular e de agudo senso crítico e fluente palestra, razão porque todas as manhãs, a calçada de sua loja enchia-se de amigos para ouvirem a sua prosa encantadora e as sibilinas farpas, que arremessava contra quem lhe caía no desagrado.
Nós, meninos da época, também participávamos como ouvintes, em companhia do seu neto Airton, que lhe herdou os dotes de inteligência e inteireza de caráter. Com a curiosidade e o espírito infantis, passávamos horas embevecidos com as tiradas memoráveis de Major Batista, lançadas contra seus “infelizes inimigos“.
O comércio de Piancó, nos meus tempos de infância, concentrava-se em um amplo largo que o povo chamava de “quadro” e que, hoje, é conhecido como “rua Velha“. Ali se estabeleciam os grandes e pequenos comerciantes, sendo, ainda, realizadas as feiras semanais, nos dias de Segundas-feiras, como ainda hoje.
Ao lado direito do empório do Major Batista, situava-se a loja de tecidos do S.n.r José Crizanto Diniz, uma das maiores da cidade, com a qual rivalizava apenas a “Loja Brasilino“, de propriedade de Pedro Brasilino, abastado fazendeiro e comerciante piancoense. Disputavam as duas a preferência da população, originando-se, daí, uma animosidade acirrada entre os seus proprietários, a ponto de romperem as relações pessoais.
Não sei porque razões, e isso não nos interessa muito, Major Batista inimizou-se com o seu vizinho e colega de comércio José Crizanto, passando a devotar-lhe indisfarçável ojeriza. O cáustico Major Batista não perdia vaza de criticar, ferinamente, o seu rival, sobretudo nas rodas que se formavam em sua calçada nas manhãs rotineiras do pequeno burgo sertanejo. Para isso, sempre contava com a ajuda óbvia de Pedro Brasilino, inimigo de José Crizanto, como já se disse.
Certa manhã, ao abrir as portas de sua loja, Zé Crizanto exibia vistoso cofre que adquirira em Campina Grande, aonde fôra abastecer-se de mercadoria e de onde chegara na noite anterior. Fazia-o orgulhosamente e com o fito único de provocar o seu intransigente e mordaz rival. O propósito, sem dúvida, era o de humilhar Major Batista. Êste, que também abria as portas do seu estabelecimento à mesma hora, divisou aquele objeto estranho na loja do seu inimigo e deve ter ficado magoado com a afronta do seu vizinho, o que lhe era imperdoável, e ficou aguardando a hora para devolver a desfeita inominável, de que estava sendo alvo. Nesse exato momento chega Fandinga, que já tomara o seu café e vinha cumprir o seu ritual diário, que era o de conversar e ouvir as amenidades do seu estimado coestadano.
Ao subir, Fandinga, a calçada de Major Batista, foi logo ouvindo dêste, que lhe dizia com a sua inconfundível voz meio espremida:
—- Fandinga, ó Fandinga, temos novidades das boas, já sabe?
—- Não, Batista, qual é? Das boas mesmo?
—- Sim, Fandinga, das boas mesmo.
—- Então, diga logo, Batista, que já estou curioso.
—- Olhe p’ralí, Fandinga, e veja: Zé Crizanto comprou cofre p’ra guardar ovos…
É que Zé Crizanto, nessa época, vinha sofrendo dificuldades financeiras face a insidiosa crise que atravessava o comércio da pequena cidade.
E Fandinga soltou uma das suas tonitruantes gargalhadas.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

JOÃO ÂNGELO


João Ângelo, sem embargo de sua seriedade reconhecida, era uma Don Juan quase que incorrigível. O administrador de sua propriedade era casado com uma morena ainda jovem  e dotada de muita beleza. Orçava ela pela casa dos trinta, idade em que os dotes físicos da mulher atingem o ápice, segundo os entendidos na matéria.
O marido era um ébrio quase contumaz, do que se aproveitou o patrão para conquistar-lhe a mulher. O romance iniciou-se rápido, facilitado pelo vício do marido e por seu afastamento para trabalhar na estrada, que se construía em um ano de sêca e da famigerada “emergência“, forma anacrônica da assistência governamental aos padecentes do fenômeno atmosférico.
A “união” corria mansa e tranqüila e o “casal“desfrutava  de eterna lua-de-mel, que viria a ser perturbada por fato corriqueiro nesses episódios.
Um matuto, dali mesmo, emigrara para o Estado de Goiás, na tentativa de fugir da sêca e tentar melhor sorte naquele Estado, que, à época, era o eldorado brasileiro. Passou por lá uns dois anos, onde amealhou alguns trocados, regressando aos pagos, talvez por inadaptação ao clima, talvez saudades da terra ou mesmo para investir, em algum trato de terra, o fruto do seu trabalho.
Chegou todo “lord” e falante, com pinta de conquistador vulgar e novo-rico. Não foi difícil iniciar namôro com a vizinha, às escondidas, naturalmente, de João Ângelo, eis que o caboclo era jovem e adquirira a algaravia dos peões do centro-oeste brasileiro. Além do mais, era um palrador nato, sem contar com a indumentária que trouxera, composta de chapéu de abas largas, calças e camisas faroeste, botas de canos longos, que fascinava as matutas desconhecedoras daqueles trajes meio exóticos. Assim, não levou muito tempo o casanova matuto a adquirir a admiração e as boas graças da sedutora vizinha.
O dono da fazenda, habitualmente, saía de Piancó no ônibus das 6 horas da manhã, às terças-feiras, regressando, invariavelmente, no das sextas-feiras, às 3 da tarde. E nêsse interregno, que medeiava entre a sextas e têrças-feiras, o don juan sertanejo deliciava-se na cama da fogosa cabocla.
Um dia, porém, o proprietário adiou o seu regresso a Piancó para o sábado, pegando a formosa amante de surpresa, que não teve tempo de avisar o seu galã favorito do desagradável incidente. Assim é que, na hora habitual, lá para as 9 da noite, João Ângelo encontrava-se refestelado no leito que mantinha, quando ouviu soarem pancadas dadas na porta. Desconfiado, perguntou:
— Dona Julieta, ó dona Julieta, parece que estão batendo à porta?
A formosa Afrodite, dissimulando sem muita inteligência, respondeu ao desconfiado pagador:
— Não é nada, não, seu João. Devem ser os porcos.
E o incrédulo fazendeiro, replicou:
— Mas porcos, dona Julieta, batendo no “frechá“?
A infiel “companheira” passou, então, a tartamudear.
No sertão, frechal é a parte mais alta do caixilho de uma porta.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

FANDINGA




Francisco de Assis Xavier (Fandinga), a quem já me referi nestes escritos, além de ser pessoa de virtudes, hoje já escassas nos homens, era um boêmio nato e por vocação. Amava as noitadas nas pensões da época, que eram requintados ambientes onde a elite masculina deleitava-se com elegância e tranqüilidade burguesas. Isso, em cidades como o Recife, João Pessoa, Campina Grande, Patos e outros de maior porte, que tinham condições de oferecer o entretenimento salutar, física e espiritualmente.
Deslocava-se ele, sempre, a João Pessoa, ora a trato de interesses da repartição que dirigia em Piancó (o IBGE), ora para “desenfastiar-se“, como costumava dizer, desfrutando os “dólares” ganhos nas demandas judiciais que patrocinava no fôro daquela cidade, como inteligente rábula que o foi. Afirmava, judiciosamente, que “não havia coisa melhor que o carinho das profissionais“.
Em certa viagem que empreendeu a João Pessoa, depois de tirar a poeira cinzenta das estradas de barro daquele tempo, com reconfortante banho tomado na Pensão Pedro Américo, de José Cabral, de quem era amigo e hóspede eterno, e após botar o seu terno de linho “diagonal” branco, subiu a ladeira do “Ponto Cem Réis” e foi jantar no restaurante “Lido“, que reunia a elite da provinciana, ainda, Capital do Estado.
Encontrando-se com um amigo, passou a beber a Theutônia, a melhor cerveja até hoje fabricada no Brasil. Depois de várias “loiras suadas“, ele e o amigo resolveram visitar a zona boêmia, a fim de completarem a noitada e comemorarem o reencontro. Combinaram iniciar pela “pensão” de Irene, localizada no “Beco dos Milagres“, uma transversal à rua da Areia, de onde seguiriam às demais casas alegres, para completar o périplo romântico. Tomaram um “carro de praça” e seguiram à procura do proibido ninho de amor.
Desembarcando do carro, Fandinga, guiando o companheiro, que também era do interior e não conhecia o lupanar, traído pela miopia de que era portador desde a infância, entrou em uma casa e foi logo indagando:
— Irene, cadê as “puaras” daqui?
Levantou-se, de uma cadeira onde se encontrava ouvindo rádio, um cidadão que, irado, respondeu rispidamente:
— Meu senhor, o senhor errou a porta. Aqui, é uma casa de família. O cabaré é aí na casa vizinha.
Caindo na realidade e dissipando os vapores etílicos, só então percebeu que batera à porta errada. Nem por isso se perturbou e perdeu a tranqüilidade. Calmamente justificou-se:
— Cidadão, mil perdões lhe pedimos. Mas, também o senhor é culpado do nosso equívoco. Como é que o senhor traz sua família para morar no cabaré? É p’ra acontecer dessas. Desculpe e dê licença que não temos tempo a perder.
E pegando o amigo pelo braço embocou na casa de Irene, de onde só saiu com o raiar da aurora.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

DR. QUINCA


O D.r Joaquim Florêncio de Alencar, D.r Quinca, foi Promotor Público, em Piancó, durante muitos anos, entre as décadas de trinta e cinqüenta, quando faleceu. Homem dotado de inteligência invulgar, espírito mordaz e satírico, não perdia vaza para fustigar os seus semelhantes. Certa vez, um matuto de Aguiar foi à sua casa constituí-lo advogado, vez que entrara em demanda com um vizinho de sua propriedade. O D.r Quinca pediu ao virtual cliente que lhe expusesse o fato gerador da pendenga, a fim de melhor situar o direito do infeliz, que se dizia turbado pelo lindeiro.
Em geral, o matuto sertanejo guarda o defeito da prolixidade em tudo o que vai expor. E esse pobre não era exceção à regra. Começou a descrever o quadro com toda a verbosidade matuta que Deus lhe dera. Mas, à proporção que desenvolvia a sua narrativa, acrescentava: “D.r, eu quero que o senhor faça assim, faça isso…“. Depois de cansativa meia hora de exposição, entremeada sempre do “D.r, eu quero que o senhor faça assim“, D.r Quinca, já saturado daquela lenga-lenga monótona, interrompe o pobre-diabo e o fulmina:
— Matuto imbecil, basta você contar o fato, porque o direito eu conheço e sei aplicá-lo.
x x x
O D.r Quinca patrocinava a defesa dos direitos de um proprietário de Nova Olinda em certa demanda possessória. Defendendo a outra parte encontrava-se Eloi de Almeida.
Eloi era de estatura pequena e excessivamente obeso, pesando cerca de 130 quilos. De poucas letras e raciocínio lento, às vezes rabulava, à míngua de rábula mais inteligente e preparado.
Em uma audiência de campo, presidida pelo Juiz da Comarca, D.r Laudelino Cordeiro, os peritos mediam o terreno litigioso, quando Eloi entendeu estar o seu constituinte sendo prejudicado com a perícia que se realizava. Requerendo, pela ordem, a palavra ao MM. Juiz presidente, para reclamar do que achava prejudicial ao seu patrocinado, saiu-se com esta “jóia“:
— Mas D.r Juiz, isso é uma jurubitança.
D.r Quinca, que já estava de bofes afogueados, replicou, ferino:
— “Jurubitança” o que, Bazar de Safadezas, exorbitância!
Eloi, então, permaneceu mudo durante todo o tempo restante da audiência.
x x x
D.r Quinca, como todo ser humano, tinha o seu lado maquiavélico, também. E nele era terrível, posto que se tratava de inteligência rara.
Francisco de Assis Xavier, pernambucano de Triunfo e piancoense de adoção, também de inteligência admirável, era agente da Estatística do município. Era conhecido como “Fandinga“, alcunha ganha na infância e que se perpetuou, mercê de sua habilidade como goleiro de futebol. Contava ele um episódio que define bem a inteligência e o maquiavelismo do D.r Quinca.
Uma manhã, estava Fandinga em sua repartição, quando alí chega D.r Quinca, sorridente e esfregando as mãos.
— Você sabe que o Loureirinho foi nomeado Promotor de Princeza Isabel?
— Sei, Quinca, por quê?
— Porquê eu vou lhe preparar uma boa surpresa. Tem papel aí?
— Tenho.
— Dê-me uma folha.
Recebida esta, colocou-a na máquina e redigiu o seguinte telegrama: “Nominando Diniz – Princeza Isabel – PB. Nomeado Promotor aí Dr. João Batista Loureiro. Muito cuidado referida autoridade, cujo caráter não recomenda aos homens de bem. Abraços Elijosé“.
Contente, o D.r Joaquim Florêncio de Alencar mostrou a mensagem a Fandinga, que, espantado, indagou:
— Qu’é isso, Quinca?! Quem é Elijosé?
— Ora, meu amado – Retrucou bem humorado o D.r Quinca – Você sabe que Eliezer é sobrinho de Nominando (Eliezer comerciava em Piancó). Esse nosso telégrafo é uma graça. Só têm incompetentes e analfabetos. Tenho certeza que quando Nominando ler o telegrama vai dizer: Esse telégrafo não tem jeito, não. Trunca todo telegrama. Êste só pode ser de Eliezer.
Mas o Dr. Loureiro não era o que informava a insidiosa mensagem.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

DR. FIRMINO LEITE



 O D.r Firmino Leite, exercendo a medicina em Piancó, sua terra natal, estava, certa manhã de um dia de feira, em seu consultório, instalado em sua casa mesmo, quando lhe aparece um matuto, seu compadre e amigo, morador do sítio “Passagem de Pedras“, acompanhado de uma filha para o renomado esculápio receitar.
O proprietário do sítio era o professor João Ângelo, homem inteligente e que fôra mestre-escola em Nova Olinda, onde ensinava as primeiras letras à infância e à juventude do lugar. João Ângelo casou-se com uma parenta minha, bem mais velha que êle, tornando-se, por essa via, o dono da propriedade “Passagem de Pedras“, do município de Piancó, herdada dos pais por sua virtuosa e inocente consorte. Cometia as suas freqüentes infidelidades conjugais, por fôrça mesmo de sua mocidade impetuosa e, talvez, levado pela diferença de idade entre ele e a esposa. Era, no entanto, um cidadão honesto nos seus negócios e possuidor de inabalável conceito perante os seus concidadãos. Tido, mesmo, como modelar exemplo de virtudes cívicas e morais.
Chegando à residência do facultativo, o matuto, com a garrulice própria da gente sertaneja e a espontaneidade que a caracteriza, foi cumprimentando o médico e compadre e tratando diretamente do objetivo que o levara até lá.
—- Cumpade, trago minha minina para o sinhô receitar, pruquê de uns dois dias p’ra cá ela num vem si sintino bem. Tá cum u’a moleza no coipo, sem aimo e hoje di manhã deu p’ra vomitar. E é purisso, cumpade, qui tá aqui sua afiada p’ru sinhô vê o qui ela tem.
O D.r Firmino levou o compadre e a afilhada para o consultório, onde passou imediatamente a examiná-la. Depois de uma meia hora de exames e perguntas, o discípulo de Hipócrates chama o compadre à sala de exames para lhe dar o diagnóstico.
—- Então, cumpade, o qui a minina tem? — indaga o matuto, ansioso.
—- Não é nada grave, compadre. Ao contrário, é até muito natural. Prepare uma cama para ela que daquí a cinco mêses você vai ter neto.
—- Qué dizê, cumpade, qui a minina tá grave?
—- Está, sim.
—- Cumpade Doutô Frimino, num diga isso. É pussíve qui cumpade João Anjo teve a corage de fazer u’a miséria dessa lá em casa?
E foi para a loja providenciar logo, o “medicamento“.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

BICHÃO

“Bichão” foi uma dessas pessoas singulares, que só aparecem de dois em dois séculos, como dádiva generosa da Natureza. De quase nenhuma letra, mas dotado de inteligência ímpar, possuía um talento todo pessoal para contar histórias e fatos, que encantava a quantos o ouviam. Conhecido menos pelo nome de batismo e registro que pelo apelido, pespegado pela maneira de tratar todo o mundo dessa forma, carinhosamente: “Ó, bichão… Você sabe, bichão… Mas é mesmo, bichão… et cetera, et cetera, et cetera“.
Jogador profissional do carteado, respondia ironicamente a quem lhe perguntava a idade, e, mal humorado, dizia:
— Tenho cem anos.
— Mas… Cem anos, Bichão?
— Sim, porque jogo há cinqüenta anos de noite e de dia. Portanto, já vivi cem anos.
Na mocidade, tocou “cabeça de tôco“, fole de 8 baixos marca “Veado“, nos sambas do sertão, e clarinete na filarmônica de “a” Santana dos Garrotes, pois fazia questão do artigo, ao se referir à terra natal.
Certa feita, na Santana, “digladiou-se” com um cantador de viola de Brejo Sêco, do Ceará, que apareceu na vila, desafiando os poetas locais para uma cantoria. Quem enfrentou a fera foi justamente Bichão, em peleja memorável e que fez rir a todos, para desespêro do vate cearense.
Para se conseguir de “Bichão” o relato do episódio, era necessária muita habilidade, muita paciência, pois êle, já no fim da vida, talvez não gostasse de reviver as aventuras inocentes da mocidade. A muito custo, o convencíamos a rememorar a indelével pendenga poética, para os santanenses que tiveram a ventura de testemunhá-la: Judivan Cabral, Conrado Gerônimo, “Fandinga“, Eu e mais outros, seus amigos.
— Não, bichão, não me lembro mais.
— Mas, Bichão…
— Isso foi invenção de Antônio Teotônio, Antônio Palitó e Antônio Cavalcanti, p’ra mangar d’eu.
— Por favor, Bichão…
— Bem, em 34, apareceu na Santana um cantador do Ceará, de Brejo Sêco, procurando fazer uma cantoria, p’ra ganhar dinheiro. Antônio Teotônio, Antônio Palitó e Antônio Cavalcanti, que eram muito “senvergonha”, vieram a eu e pediram p’ra eu cantar com o cabra. Eu disse qui não, qui num sabia cantar. “Ó, Bichão, p’ra gente se divertir. Você sabe que aqui não tem divertimento nenhum“. Mas eu num sei cantar… “Bichão, nós lhe damos duas garrafas de vinho do Pôrto, mas vamos fazer a cantoria, p’ra êsse cabra não sair dizendo que Santana não tem homem inteligente“. Concordei e êles foram preparar a cantoria, na casa de Irineu Teódulo, cunhado de Antônio Teotônio. E saíram de casa em casa avisando o povo p’ra assistir. De noite, a casa ‘tava cheia, com gente no meio da rua, querendo assistir eu cantar. Na sala, o cabra já ‘tava sentado numa cadeira, a viola pendurada no ombro. Antônio Teotônio tinha arrumado um picenez* do irmão dele, Clementino, e me deu p’ra eu botar e se rir mais d’eu. Me sentei do lado do cabra e começamo a cantoria. O cabra afinou a viola e começou tirando uns verso dizendo qui era letrado, qui sabia ler, sabia contar, diminuir, e sabia português. Eu num tinha viola, e quando ele terminou, eu bati na viola dele, ele fechou a cara e eu respondi:
Você diz qui sabe ler,
     Eu também sei português.
     Conta de somar sei muita,
     De diminuir sei três.
     Agora mi dê licença,
     P’reu botar meu picenez.
E tirei o picenez do bolso pequeno do palitó e botei nos óio. Menino, foi u’anarquia gerá. O cabra fez u’a carranca feia, pensando qui o povo ‘tava mangando dêle. Mas n’um era não. O povo mangava era d’eu, bichão, purquê nunca tinham visto eu de picenez. Aí o cabra começou a se afobar, disse qui era valente e fez uns verso dizendo qui num tinha medo de cara feia, me martratando. Aí eu respondí:
Triste do cantador,
     Qui eu lhe der na batida.
     Se não pegar no descanso,
     Pego sempre na dormida.
     Boto laço na vereda,
     Boto tingüi na bebida.
Aí, bichão, o povo num si agüentava de tanto rir d’eu, e o cabra se encabulou e se zangou mais, pensando qui o povo ‘tava anarquizando êle. Mas num era não, bichão, o povo ‘tava mangando era d’eu cum o picenez. Mas o cabra num entendia e pensava mermo qui era cum êle e tirou uns verso martratando a Santana, dizendo qui a Santana era terra de fuxiqueiro, qui o povo da Santana num tinha educação e coisa e tá. Aí eu respondí:
Tiro Crato p’ra barulho,
     Barbalha p’ra mansidão;
     Piauí p’ra criar gado,
     Pajeú p’ra valentão;
     A Santana p’ro fuxico,
     Brejo Sêco p’ra ladrão.
Aí, menino, o cabra deu um pulo da cadeira, e fungava de raiva, pensando qui o povo ‘tava anarquizando êle, e gritou: “Numa terra acanaiada como essa, num boto mais os pés”. Foi p’ro hotel, selou o cavalo e nunca mais apareceu na Santana. Aí, eu, Antônio Teotônio, Antônio Palitó e Antônio Cavalcanti fumo beber o vinho do Pôrto cum o povo todo atrás de nós, se rindo.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

 

ANTONIO FREIRE



Existiram, em Piancó, dois irmãos, Antônio (Tota) e Pedro Freire, que, entre outras notáveis virtudes, foram dotados de inteligência ímpar, apesar de semi-analfabetos. Tota, mesmo, mal assinava o nome. Mas, talvez por isso mesmo, a Natureza compensou-os com talentos de causar inveja ao mais inteligente dos homens. Tota, a meu ver mais privilegiado que seu irmão, deixou rico filão de suas tiradas inesquecíveis.
Era proprietário de caminhão e comerciante, trabalhando durante muito tempo no Maranhão, de onde trazia arroz e madeira para vender na Paraíba, daqui levando produtos regionais para abastecer o comércio daquele Estado.
Logo que apareceram os primeiros caminhões de “cabine de aço“, onde só cabiam o “chauffeur” e uma outra pessoa, trocou o seu “Chevrolet” de cabine de madeira por um “International” último modêlo.
Certo dia, estando ele em Patos, de passagem para Campina Grande, aonde ia levar uma carga de algodão em pluma, aproximou-se, de seu veículo, uma senhora, indagando se havia uma vaga, para si, até a cidade de Campina, que era o pólo abastecedor de todo o interior da Paraíba e de outros Estados do Nordeste. Tota respondeu-lhe que, infelizmente, a boléia era pequena e só dava para um passageiro, no caso ele mesmo, eis que sempre acompanhava o “chauffeur“, pois tinha necessidade dele próprio fazer os seus negócios. A mulher, que precisava chegar à Campina com uma certa urgência, contestou que se ele, Tota, não se importasse ou nenhum transtorno lhe causasse, ela não faria questão de ir apertada na pequena cabine. Tota disse que, por ele, não havia problema nenhum, pois o que desejava era servir a ela.
Assim, entrou a mulher na boléia, e logo depois o dono do veículo, e se acomodaram no pequeno espaço, feitos sardinhas em lata. A estrada era de terra; não se sonhava nem com asfalto, que era animal inteiramente desconhecido no desprezado e sofrido Nordeste. Partiu o caminhão e os solavancos foram incomodando a pobre senhora, arrependida, já, talvez, da sua idéia. E a cada catabilho que o caminhão dava, pedia a mulher: “Meu senhor, feche as pernas p’ra folgar mais um pouco“. Depois de cêrca de uma hora de viagem, nas alturas de A. de B., ouvindo aquela cantilena “meu senhor, feche as pernas p’ra folgar mais um pouco“, Tota não suportou mais e desferiu à infeliz mulher:
— Dona, feche a senhora que não tem o que quebrar…
x x x
Certa feita, chegou Tota Freire à Santana dos Garrotes, a mascatear com seu caminhão. Era festa da padroeira do lugar, Senhora Santana, e um bom momento para ele fazer excelentes negócios e rever amigos e parentes, que os tinha muitos, alí.
Além das festividades religiosas, havia as profanas, como sói acontecer em todos os eventos como esse, no interior. Estava programado um baile para a noite dêsse dia, aproveitando Tota a oportunidade para se divertir um pouco, pois não só do trabalho vive o homem.
Às oito horas da noite, já se encontrava Tota no salão, tomando a sua cervejinha em companhia de amigos, deleitando-os com a sua incomparável e deliciosa verve. O baile iniciou-se animado e os pares começaram logo a dançar. Tota, então, como todo pé de valsa formado nos forrós sertanejos, sentiu desejo de, também, balançar o esqueleto. Ficou a matutar com que dama dançaria, eis que não lhe ficaria bem fazê-lo com adolescentes ou outra jovem qualquer, pois a sua condição de “homem casado” talvez as inibisse, aceitando elas a sua parceria, quem sabe, apenas por uma questão de gentileza e atenção à amizade que o vinculava aos seus pais.
E enquanto bebia, conversava e procurava uma parceira que se ajustasse à sua situação, avistou duas vitalinas rodopiando pelo salão, como se fossem um par de bailarinos, o que era muito comum nos sertões daqueles tempos, posto que alí ainda não chegara a “dança sôlta” de hoje, que sepultou toda a arte coreográfica dos bailados de outrora, infelizmente.
Concluída a “parte“, as balzaqueanas retornaram às suas cadeiras, entregando-se à animada palestra, mui certamente tecendo os seus comentários e as suas críticas ferinas, calcados na inveja característica de quem já atingiu, inexoravelmente, o caritó.
Reiniciada a dança, Tota pediu licença aos seus companheiros e se dirigiu a uma das vitalinas, solicitando lhe desse a honraria de ser seu par naquela contra-dança. A moça velha, então, saiu-se com esta:
— Seu Tota, o sinhô me adiscurpe, mais eu num danço cum home…
Tota imediatamente devolveu-lhe:
— Tá, dona, a sinhora impatou cumigo, purquê eu também num danço.
E foi em busca de um brotinho para sambar.
PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)
 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O VELHO BADÚ



 
A poucos dias de completar 99 anos, o piancoense Antônio Ferreira Badú é, antes de tudo, um contador de histórias; não um enredo fictício, ilusório, inventado, mas a saga de sua própria vida: uma vida recheada de lutas, sacrifícios, sofrimentos, aventuras, façanhas e coroada por vitórias. Carregou o próprio destino em lombo de burros e por entre veredas da caatinga espinhosa, mas venceu.

 O velho Badú é mais do que um narrador de fatos; é um herói da vida, cuja maior e primeira vitória foi vencer a própria morte: um destino prematuro, trágico e certo para os nordestinos interioranos e pobres, como ele, do começo do século vinte. Venceu as secas, o desemprego, o abandono a que era relegada a gente dos rincões paraibanos naqueles tempos, e hoje está vivo para contar sua história, e o legado moral que deixa aos dez filhos é imorredouro.

Constituir uma família e criá-la com dignidade e educação foi mais um grato troféu que os braços fortes do antigo tropeiro ergueu. Agricultor, vaqueiro, tropeiro e comerciante: seu Badú não rejeitava tarefas e nem poderia recusá-las: nasceu em uma família de rendeiros pobres e teve que trabalhar muito para sobreviver. Seu pai, Luiz Badú, não tinha terra e vivia de renda agrícola e diárias de serviço em propriedades entre Piancó e Itaporanga.

Antônio Badú nasceu em 10 de setembro de 1910 no sítio piancoense de Brotas, mas cresceu em Pitombeira. Atravessou todo o século vinte e chega ao terceiro milênio lúcido, sadio e com uma característica que o acompanhou a vida toda: a grande disposição para conversar e o bom humor, traços que o fizeram um homem popular e querido. É testemunha dos fatos mais importantes de Piancó nos últimos noventa anos, mas a memória já não anda tão primorosa como antes e até as idas diárias no mercado, onde foi negociante por muitas décadas, ficaram para trás. “A gente vai ficando velho e vai esquecendo as coisas, mas minha vida tem muita coisa, tem muita história”, diz seu Badú, deitado confortavelmente em uma rede na casa da filha Nazilda. Mas ainda é morador da Rua Nove de Fevereiro e é mais antigo do que o acontecimento que deu nome à artéria onde mora.

Em fevereiro de 1926 tinha 16 anos, mas já não tem muitas lembranças dos acontecimentos que marcaram a passagem da Coluna Prestes por Piancó, cuja maior conseqüência foi o trucidamento do padre Aristides. “Nesse tempo, eu morava no sítio e num tinha muito conhecimento do que se passava na cidade”, justifica. Seu Badú também já não recorda os fatos da revolução de 30, quando Piancó foi transformada no centro de operações e comando da polícia estadual, que lutava contra os revoltosos de Princesa, comandados pelo coronel Zé Pereira. Se falta memória sobre os dois mais importantes fatos do século passado que envolveram a região, sobra lembranças acerca de uma de suas primeiras aventuras: a ida, em 1932, ao Rio de Janeiro, capital do país à época. Aceitou o convite de um amigo para se apresentar, voluntariamente, às tropas do presidente Getúlio Vargas que combatiam a Revolução Constitucionalista de São Paulo. 

Voltou para Piancó seis meses depois sem disparar um único tiro. “Não fui pru combate porque os companheiros que estavam comigo eram frouxos”, argumenta. Mas a aventura foi agradável: tornou-se um dos primeiros filhos da região a viajar de carro e de navio. Também teve a oportunidade de mostrar aos homens da cavalaria como se domina um animal bravio, nada difícil para um vaqueiro acostumado à lida árdua da caatinga: “Me desafiaram e eu mostrei a força do sertanejo da Paraíba, e risquei o cavalo que a poeira levantou sobre os burgueses (como era chamada a elite carioca à época)”. 

 De vaqueiro a tropeiro

Durante décadas carregou no lombo de burro os produtos que abasteciam o comércio de Piancó. Com sua tropa de bons animais, tendo à frente a Mira Rosa, sua burra preferida, viajou todo o interior nordestino durante muitos anos da primeira metade do século, levando e trazendo mercadorias. Para Campina Grande levava algodão, que era descaroçado na usina de Piancó, e de lá trazia gêneros alimentícios, miudezas, utensílios domésticos e outras mercadorias. “Ter uma tropa de burro naquele tempo é como ter um caminhão hoje”, diz o velho tropeiro, que levava 15 dias para chegar a Campina. De Mossoró, no Rio Grande do Norte, seu Badú trazia sal para temperar o paladar piancoense; e de Mata Grande, Alagoas, chegava ao comércio local outros produtos. “A gente trazia de tudo, tudo que tem hoje no comércio era a gente que trazia naquele tempo”, diz, ao recordar as longas e enfadonhas caminhadas. 

Mas quando o progresso chegou e os burros passaram a ser substituídos pelos automóveis, seu Badú trocou a vida de tropeiro por um comércio de cereais no mercado local, onde permaneceu por muitos anos. Apesar dos lapsos de memória, há coisas que Antônio Bandú não esquece: viu o primeiro carro que chegou a Piancó e diz que era de um rapaz chamado Chico Porto.

Era o começo do século vinte. Nesse tempo, dois dos maiores comerciantes de Piancó eram Major Batista e Pedro Ângelo, segundo relata. Entretanto, o piancoense mais rico chamava-se João Clementino, de Pitombeira, que “tirava oitenta berrezos por ano; e o mais valente era João César, “homem respeitado e de aparência tranqüila”. Sobre os amigos que construiu ao longo da vida, diz que um dos melhores foi o dr. Firmino Leite. 

Testemunhou a chegada da energia elétrica na cidade, mas não recorda quando, e foi a primeira pessoa a pôr os pés na ponte sobre o rio Piancó. “Eu ainda lembro bem: foi no dia 23 de dezembro de 33: a ponte tava pra ser inaugurada e ninguém podia passar; era comecinho de noite, mas eu tinha que atravessar um animal meu, então falei com os dois homens que estavam vigiando a ponte, e eles me permitiram passar, mas eu passei aperreado porque era uma coisa nova e poderia ter algum buraco”, narra. Entre as estiagens mais difíceis que enfrentou, recorda a de 1915, quando tinha apenas cinco anos. “Naquela seca, o gado escapou comendo mandacaru”, lembra. 

 A família 

C a s o u - s e com uma prima, Maria Badú, já falecida. E uma de suas maiores preocupações foi sempre encaminhar os filhos para o bem e para o futuro. Não teve oportunidade de freqüentar uma escola, mas soube compreender a importância da educação para a vida de qualquer pessoa. Em tempos de escolas distantes e difíceis, seu Badú pagou a uma professora para ensinar os filhos em casa e fez outros esforços para vê-los trilhar o caminho da prosperidade, e foi recompensado. 

No próximo ano serão cem janeiros de vida e a família já pensa em uma grande festa. Seu Badú nunca foi de dança nem de farra, mas não dispensa um bom repente. Seus 90 anos foram comemorados com a poesia de dois violeiros. Antônio Badú ainda aguarda o centenário, mas, oficialmente, já é um homem de 102 anos. Sua idade foi aumentada quando era menino para que pudesse votar. “Mas porque é que você tá me fazendo tanta pergunta?”, questionou ele à reportagem. “É pra o jornal seu Badú”. “Então se é pru jornal, a conversa tem que ser aprumada, mas a gente também num pode sair contando tudo, né?”, diz em tom de riso. 

 Folha do Vale, em 08/08/2009.
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