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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

ROMANTISMO E PAZ

  
Desencantado com a degeneração de parte da nossa sociedade, onde a corrupção e o descontrole social têm levado o país a essa assustadora, absu...rda e incontrolável onda de violência que vitima, impiedosamente, crianças, jovens, adultos e idosos, sem que as autoridades imponham respeito e restabeleçam a ordem, hoje resolvi fugir desse debate, mesmo que alguns radicais me arrastem por seis quilômetros e me ponham na cabeça a carapuça da acomodação, covardia e alienação.
Optei por dar um passeio pela infância/juventude, revisitando momentos, personalidades e lugares que fizeram a história simples de nossa querida Piancó. Decidi rever fases da vida que todo mundo gosta de recordar, como a primeira bebedeira, a primeira namorada, o primeiro beijo. Busquei no íntimo das recordações, preciosidades que não se esquecem e que a modernidade não proporciona jamais.
São coisas simples como, por exemplo, ver o raiar da aurora por trás da Serra de Santo Antonio; tomar banho no Rio da cidade, no Riacho do Porção ou no açude do Governo; passar férias no sítio; correr pela chuva na época do inverno; atirar de baleeira; ouvir o canto dos pássaros nas fruteiras do quintal; procurar ninho de passarinhos nos arredores da cidade; caçar e pescar na companhia de João Manga Rosa, Carlinho de Tota Freire, Sapecado e Luciano de Zé Gordo. Sorrir dos causos contados pelo fantasioso Chico Abrantes.
Escutar o apito da Usina de Algodão, uma espécie de relógio de todos, lembrando o tempo de cada um. Jogar bola nos Oitis e voltar para casa cheio de lama; brincar com bola de meia na calçada; assistir as exibições de futebol dos craques Dácio e Toinho de Mila, no estádio Mendonção, com mestre Eurídes Liberalino apitando a partida; fazer parte do time de João de Joval, que por sinal cabia num jipe; brincar de pião, triângulo, bila, castanha, bisuri, mancha, livrei e toca. Ver as meninas brincando de academia na calçada. Descer a ladeira de Dr. Montenegro, de bicicleta, em alta velocidade; correr de patinete com rodas de rolimã; soltar “roqueira” no período de São João. Adormecer embalado por “histórias de trancoso” contadas por nossos pais.
Comprar bola de celulóide na venda de “seu” Eliezer; chinela japonesa na bodega de Silva Bidô, no Belo Horizonte; tecido na loja de “seu” Chiquinho Cavalcanti; chapéu de massa em Bianor Farias; calça de tergal em Zuza Brasileiro; confecções no Armazém Primavera; sapatos a Assis Remígio e Zelita; eletrodomésticos a João Carvalho; chumbo lá em Zé Careca; gaiola e passarinho em Zezim Tamborete; carne nas tarimbas de Louro Marchante e Jorge Padre.
Despolpar arroz na despolpadeira de Napoleão Ângelo; comprar pão nas padarias de Justino Leite ou Valdemar Virgulino; remédio nas farmácias de Dedé Galdino, João Farias, Neco Araújo e Manoel Cavalcanti; vacinas para animais na farmácia veterinária de Neco Moreira; e outros produtos que só eram encontrados nas bodegas de Severino Zacarias e Antonio Toscano, na Rua Velha. Bom mesmo era andar pela feira-livre no Mercado Público Municipal, às segundas, olhando todo tipo de bugiganga.
Ir à missa dos padres Otaviano, Luiz Laíres, Valdomiro e Luiz Callou (cada um a seu tempo) na igreja velha de Nossa Senhora do Rosário, que já foi a matriz de Santo Antonio; assistir as novenas do mês de maio e se emocionar com o canto da ladainha; seguir Frei Damião pelas madrugadas, em caminhadas reflexivas e cheias de fé; assistir aula na escola Brasil Oiticica e no Grupo Escolar Ademar Leite; estudar no Ginásio Municipal Santana e no Colégio Estadual; ficar admirando as alunas do colégio das freiras com suas saias plissadas; desfilar no dia 7 de Setembro; assistir ao brilhante desempenho do galã Carlos Telésforo e da bela Socorro Alencar Rocha no musical Maria Chiquinha, realizado com sucesso no auditório do Colégio Santo Antonio. Apreciar a voz de Menininha Porto, com acompanhamento de Didi de Branca, no Banjo, e Anchieta, no Pistom.
Ter o privilégio de contar com professores do quilate de Conrado Almeida, Araci Leite, Ernestina Araújo, Beatriz Loureiro, Di Maria Serra Galdino, Lourdes e Zenaide Brasilino, Joana D´Arc Alencar, Babaíta Azevedo, Estela Lima, Janete e Dadá Lopes, Terezinha Lacerda, Chiquinha Freire, Ceci Liberalino, Doraci, Ariosvaldo, Marluce Loureiro, Maria do Carmo Lopes, Chiquinha Azevedo, Margarida Remígio, Socorro Montenegro, Luzenira Ramalho, Irmã Epunina, Dezinha Barreto, Manoel Nunes, Betinha, Maria da Conceição Leite, Elicênia Pereira, Noêmia Mororó e Socorro Porto.
Balançar nas canoas e dar umas voltas na “onda” e no carrossel de Antonio Pequeno, com Caim tocando Fole; rodar nos cavalinhos e na roda gigante do Parque Lima; comer cachorro quente e enviar um postal sonoro para uma paquera pela difusora do parque e ficar olhando sua reação, escondido; ver a banda se apresentar no Coreto, nas tradicionais festas do padroeiro, ou passar tocando o dobrado “Dois Corações”; ser músico de Bombardino na Filarmônica Santo Antonio sob a regência do grande mestre Eliseu Veríssimo; participar das quermesses nas festas de junho; apreciar os shows de “seu” Pedroca, no Sax, e Toinho de Dorinha, no Tenor.
Namorar e passear de mãos dadas na Praça Salviano Leite. Assistir os filmes de Ringo e Django ou Dio Comi Ti Amo, no escurinho do Cine Manaíra, sonhando em um dia se tornar artista. Tomar “uma” no bar de Xuxuta, comendo os tira-gostos de Bimba, ouvindo hits maravilhosos como Menina de Trança (Antonio Marcos), Detalhes (Roberto Carlos), Seja o que Deus Quiser (Martinha), Meu bem não me quer (Renato e Seus Blue Caps), Era um Garoto que como eu Amava os Beatles e Rolling Stones (Os Incríveis), Mar de Rosas (The Fevers), Última Canção (Paulo Sérgio) e Twist And Shout (Beatles).
Fazer serenata com radiola portátil em noites enluaradas, mesmo com medo da polícia; beber cana no Hotel de “seu” Flor Cazé, no boteco de Leno Miguel, no bar de Doni, no barraco de Antonio de Zé de Cícero e cerveja gelada na Soverteria de Dino; chupar picolé na Sorveteria Copacabana; comer galinha de capoeira com arrubacão no bar da Véa; dar uma olhada no Cabaré de Zé de Lino, no Nova Descoberta, ou uma “aliviada” na boate Beira Rio; chegar em casa com o dia quase amanhecendo, sem medo de violência.
Usar roupa branca e dançar sob “luz negra” nos bailes do Piancó Clube, ao som de Bem-Bem e seu Conjunto (Cazajeiras), Jovens (Patos), Natos (Itaporanga) e Selenitas (João Pessoa); nos “assustados” da UBOP (União Beneficente dos Operários de Piancó), com a animação de Pedroca e seu Regional; e nas tertúlias da UCREP (União Cultural e Recreativa dos Estudantes de Piancó), que funcionava no final da Rua Mascarenhas de Moraes; brincar carnaval no Popular de Severino Leite e ver as presepadas de Pedrinho de Cabo Bento vestido de mulher no Zé Pereira.
Usar roupa nova nas quatro festas do ano; andar com um tênis sete vidas; deixar o cabelo crescer ao estilo Roberto Carlos ou Beatles; usar a primeira calça USTOP, camisa balon ou volta ao mundo e cinturão de fivelona; calçar sapatos cavalo de aço; mandar fazer uma calça de linho na alfaiataria de Zé Ventura; bater papo na barbearia de Santo; rir das piadas de Lula do Pistom e prosear com Pedro Freire, Zé Piancó, Galego da discoteca e com o intelectual e artista Chico Jó; ouvir Severino Hermínio tocando harmônico; escutar a difusora “A Voz do Vale” de Leocácio, por onde passaram grandes locutores como Osvaldo, Assuero Xavier e Sérgio Lacerda.
Se consultar com os médicos Antonio Quinho, Eudo Diniz e Felizardo Teotônio; chamar às pressas Nininha enfermeira para fazer um parto em casa; se rezar com dona Zabé Macena; mandar Zé Manoca consertar a rede elétrica ou Antonio Abacaxi as instalações de água; encomendar uma planta de casa a Benjamim Ângelo; levar o rádio ou a radiola pro conserto na oficina de Ulisses Ventura e os calçados na Sapataria de “seu” Cícero, pai de Nêgo da Ema; engraxar o sapato com Luiz Pepé, Lino ou Euclides Chapeado.
Comprar tapioca de côco a Miúda, mãe de Nêgo D’água e Anchieta Pau de Galão; comer cocada de leite no barraco de “seu” Antonio Vicente, quebra-queixo de “seu” Augusto e pirulito de Joaquim Alexandre; tirar groselha e levar uma carreira de dona Rosinha Ventura; jogar sinuca no salão de Juju de Pedro Pereira e baralho na casa de jogos de Jorge de Cabo Bento; fretar o carro de Chico Porto; viajar pelas empresas da Viação Patoense e Andorinha. Estas são coisas que me recordo. Saudável nostalgia. Claro que nem tudo era perfeito. Mas, pelo menos, havia mais romantismo, apesar das inquietações próprias da juventude.
Como diz Osvaldo Montenegro, em uma de suas canções, existe em mim uma capacidade muito grande de “amar para sempre o que ficou para trás”. Ainda bem que tudo isso está presente na memória de quem viveu em tempos românticos e de paz. A propósito, o historiador e medievista Jacques Le Goff já ensinava que “a memória, onde cresce a história, procura salvar o passado e o futuro”.
Texto escrito para o www.pianco.com.br  em 03/08/2008 pelo Professor Universitário e Jornalista Orlando Angelo.
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