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quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Velho Badú



 
 
A poucos dias de completar 99 anos, o piancoense Antônio Ferreira Badú é, antes de tudo, um contador de histórias; não um enredo fictício, ilusório, inventado, mas a saga de sua própria vida: uma vida recheada de lutas, sacrifícios, sofrimentos, aventuras, façanhas e coroada por vitórias. Carregou o próprio destino em lombo de burros e por entre veredas da caatinga espinhosa, mas venceu.

 O velho Badú é mais do que um narrador de fatos; é um herói da vida, cuja maior e primeira vitória foi vencer a própria morte: um destino prematuro, trágico e certo para os nordestinos interioranos e pobres, como ele, do começo do século vinte. Venceu as secas, o desemprego, o abandono a que era relegada a gente dos rincões paraibanos naqueles tempos, e hoje está vivo para contar sua história, e o legado moral que deixa aos dez filhos é imorredouro.

Constituir uma família e criá-la com dignidade e educação foi mais um grato troféu que os braços fortes do antigo tropeiro ergueu. Agricultor, vaqueiro, tropeiro e comerciante: seu Badú não rejeitava tarefas e nem poderia recusá-las: nasceu em uma família de rendeiros pobres e teve que trabalhar muito para sobreviver. Seu pai, Luiz Badú, não tinha terra e vivia de renda agrícola e diárias de serviço em propriedades entre Piancó e Itaporanga.

Antônio Badú nasceu em 10 de setembro de 1910 no sítio piancoense de Brotas, mas cresceu em Pitombeira. Atravessou todo o século vinte e chega ao terceiro milênio lúcido, sadio e com uma característica que o acompanhou a vida toda: a grande disposição para conversar e o bom humor, traços que o fizeram um homem popular e querido. É testemunha dos fatos mais importantes de Piancó nos últimos noventa anos, mas a memória já não anda tão primorosa como antes e até as idas diárias no mercado, onde foi negociante por muitas décadas, ficaram para trás. “A gente vai ficando velho e vai esquecendo as coisas, mas minha vida tem muita coisa, tem muita história”, diz seu Badú, deitado confortavelmente em uma rede na casa da filha Nazilda. Mas ainda é morador da Rua Nove de Fevereiro e é mais antigo do que o acontecimento que deu nome à artéria onde mora.

Em fevereiro de 1926 tinha 16 anos, mas já não tem muitas lembranças dos acontecimentos que marcaram a passagem da Coluna Prestes por Piancó, cuja maior conseqüência foi o trucidamento do padre Aristides. “Nesse tempo, eu morava no sítio e num tinha muito conhecimento do que se passava na cidade”, justifica. Seu Badú também já não recorda os fatos da revolução de 30, quando Piancó foi transformada no centro de operações e comando da polícia estadual, que lutava contra os revoltosos de Princesa, comandados pelo coronel Zé Pereira. Se falta memória sobre os dois mais importantes fatos do século passado que envolveram a região, sobra lembranças acerca de uma de suas primeiras aventuras: a ida, em 1932, ao Rio de Janeiro, capital do país à época. Aceitou o convite de um amigo para se apresentar, voluntariamente, às tropas do presidente Getúlio Vargas que combatiam a Revolução Constitucionalista de São Paulo. 

Voltou para Piancó seis meses depois sem disparar um único tiro. “Não fui pru combate porque os companheiros que estavam comigo eram frouxos”, argumenta. Mas a aventura foi agradável: tornou-se um dos primeiros filhos da região a viajar de carro e de navio. Também teve a oportunidade de mostrar aos homens da cavalaria como se domina um animal bravio, nada difícil para um vaqueiro acostumado à lida árdua da caatinga: “Me desafiaram e eu mostrei a força do sertanejo da Paraíba, e risquei o cavalo que a poeira levantou sobre os burgueses (como era chamada a elite carioca à época)”. 

 De vaqueiro a tropeiro

Durante décadas carregou no lombo de burro os produtos que abasteciam o comércio de Piancó. Com sua tropa de bons animais, tendo à frente a Mira Rosa, sua burra preferida, viajou todo o interior nordestino durante muitos anos da primeira metade do século, levando e trazendo mercadorias. Para Campina Grande levava algodão, que era descaroçado na usina de Piancó, e de lá trazia gêneros alimentícios, miudezas, utensílios domésticos e outras mercadorias. “Ter uma tropa de burro naquele tempo é como ter um caminhão hoje”, diz o velho tropeiro, que levava 15 dias para chegar a Campina. De Mossoró, no Rio Grande do Norte, seu Badú trazia sal para temperar o paladar piancoense; e de Mata Grande, Alagoas, chegava ao comércio local outros produtos. “A gente trazia de tudo, tudo que tem hoje no comércio era a gente que trazia naquele tempo”, diz, ao recordar as longas e enfadonhas caminhadas. 

Mas quando o progresso chegou e os burros passaram a ser substituídos pelos automóveis, seu Badú trocou a vida de tropeiro por um comércio de cereais no mercado local, onde permaneceu por muitos anos. Apesar dos lapsos de memória, há coisas que Antônio Bandú não esquece: viu o primeiro carro que chegou a Piancó e diz que era de um rapaz chamado Chico Porto.

Era o começo do século vinte. Nesse tempo, dois dos maiores comerciantes de Piancó eram Major Batista e Pedro Ângelo, segundo relata. Entretanto, o piancoense mais rico chamava-se João Clementino, de Pitombeira, que “tirava oitenta berrezos por ano; e o mais valente era João César, “homem respeitado e de aparência tranqüila”. Sobre os amigos que construiu ao longo da vida, diz que um dos melhores foi o dr. Firmino Leite. 

Testemunhou a chegada da energia elétrica na cidade, mas não recorda quando, e foi a primeira pessoa a pôr os pés na ponte sobre o rio Piancó. “Eu ainda lembro bem: foi no dia 23 de dezembro de 33: a ponte tava pra ser inaugurada e ninguém podia passar; era comecinho de noite, mas eu tinha que atravessar um animal meu, então falei com os dois homens que estavam vigiando a ponte, e eles me permitiram passar, mas eu passei aperreado porque era uma coisa nova e poderia ter algum buraco”, narra. Entre as estiagens mais difíceis que enfrentou, recorda a de 1915, quando tinha apenas cinco anos. “Naquela seca, o gado escapou comendo mandacaru”, lembra. 

 A família 

C a s o u - s e com uma prima, Maria Badú, já falecida. E uma de suas maiores preocupações foi sempre encaminhar os filhos para o bem e para o futuro. Não teve oportunidade de freqüentar uma escola, mas soube compreender a importância da educação para a vida de qualquer pessoa. Em tempos de escolas distantes e difíceis, seu Badú pagou a uma professora para ensinar os filhos em casa e fez outros esforços para vê-los trilhar o caminho da prosperidade, e foi recompensado. 

No próximo ano serão cem janeiros de vida e a família já pensa em uma grande festa. Seu Badú nunca foi de dança nem de farra, mas não dispensa um bom repente. Seus 90 anos foram comemorados com a poesia de dois violeiros. Antônio Badú ainda aguarda o centenário, mas, oficialmente, já é um homem de 102 anos. Sua idade foi aumentada quando era menino para que pudesse votar. “Mas porque é que você tá me fazendo tanta pergunta?”, questionou ele à reportagem. “É pra o jornal seu Badú”. “Então se é pru jornal, a conversa tem que ser aprumada, mas a gente também num pode sair contando tudo, né?”, diz em tom de riso. 

 Folha do Vale, em 08/08/2009.
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