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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

ANTONIO FREIRE



Existiram, em Piancó, dois irmãos, Antônio (Tota) e Pedro Freire, que, entre outras notáveis virtudes, foram dotados de inteligência ímpar, apesar de semi-analfabetos. Tota, mesmo, mal assinava o nome. Mas, talvez por isso mesmo, a Natureza compensou-os com talentos de causar inveja ao mais inteligente dos homens. Tota, a meu ver mais privilegiado que seu irmão, deixou rico filão de suas tiradas inesquecíveis.
Era proprietário de caminhão e comerciante, trabalhando durante muito tempo no Maranhão, de onde trazia arroz e madeira para vender na Paraíba, daqui levando produtos regionais para abastecer o comércio daquele Estado.
Logo que apareceram os primeiros caminhões de “cabine de aço“, onde só cabiam o “chauffeur” e uma outra pessoa, trocou o seu “Chevrolet” de cabine de madeira por um “International” último modêlo.
Certo dia, estando ele em Patos, de passagem para Campina Grande, aonde ia levar uma carga de algodão em pluma, aproximou-se, de seu veículo, uma senhora, indagando se havia uma vaga, para si, até a cidade de Campina, que era o pólo abastecedor de todo o interior da Paraíba e de outros Estados do Nordeste. Tota respondeu-lhe que, infelizmente, a boléia era pequena e só dava para um passageiro, no caso ele mesmo, eis que sempre acompanhava o “chauffeur“, pois tinha necessidade dele próprio fazer os seus negócios. A mulher, que precisava chegar à Campina com uma certa urgência, contestou que se ele, Tota, não se importasse ou nenhum transtorno lhe causasse, ela não faria questão de ir apertada na pequena cabine. Tota disse que, por ele, não havia problema nenhum, pois o que desejava era servir a ela.
Assim, entrou a mulher na boléia, e logo depois o dono do veículo, e se acomodaram no pequeno espaço, feitos sardinhas em lata. A estrada era de terra; não se sonhava nem com asfalto, que era animal inteiramente desconhecido no desprezado e sofrido Nordeste. Partiu o caminhão e os solavancos foram incomodando a pobre senhora, arrependida, já, talvez, da sua idéia. E a cada catabilho que o caminhão dava, pedia a mulher: “Meu senhor, feche as pernas p’ra folgar mais um pouco“. Depois de cêrca de uma hora de viagem, nas alturas de A. de B., ouvindo aquela cantilena “meu senhor, feche as pernas p’ra folgar mais um pouco“, Tota não suportou mais e desferiu à infeliz mulher:
— Dona, feche a senhora que não tem o que quebrar…
x x x
Certa feita, chegou Tota Freire à Santana dos Garrotes, a mascatear com seu caminhão. Era festa da padroeira do lugar, Senhora Santana, e um bom momento para ele fazer excelentes negócios e rever amigos e parentes, que os tinha muitos, alí.
Além das festividades religiosas, havia as profanas, como sói acontecer em todos os eventos como esse, no interior. Estava programado um baile para a noite dêsse dia, aproveitando Tota a oportunidade para se divertir um pouco, pois não só do trabalho vive o homem.
Às oito horas da noite, já se encontrava Tota no salão, tomando a sua cervejinha em companhia de amigos, deleitando-os com a sua incomparável e deliciosa verve. O baile iniciou-se animado e os pares começaram logo a dançar. Tota, então, como todo pé de valsa formado nos forrós sertanejos, sentiu desejo de, também, balançar o esqueleto. Ficou a matutar com que dama dançaria, eis que não lhe ficaria bem fazê-lo com adolescentes ou outra jovem qualquer, pois a sua condição de “homem casado” talvez as inibisse, aceitando elas a sua parceria, quem sabe, apenas por uma questão de gentileza e atenção à amizade que o vinculava aos seus pais.
E enquanto bebia, conversava e procurava uma parceira que se ajustasse à sua situação, avistou duas vitalinas rodopiando pelo salão, como se fossem um par de bailarinos, o que era muito comum nos sertões daqueles tempos, posto que alí ainda não chegara a “dança sôlta” de hoje, que sepultou toda a arte coreográfica dos bailados de outrora, infelizmente.
Concluída a “parte“, as balzaqueanas retornaram às suas cadeiras, entregando-se à animada palestra, mui certamente tecendo os seus comentários e as suas críticas ferinas, calcados na inveja característica de quem já atingiu, inexoravelmente, o caritó.
Reiniciada a dança, Tota pediu licença aos seus companheiros e se dirigiu a uma das vitalinas, solicitando lhe desse a honraria de ser seu par naquela contra-dança. A moça velha, então, saiu-se com esta:
— Seu Tota, o sinhô me adiscurpe, mais eu num danço cum home…
Tota imediatamente devolveu-lhe:
— Tá, dona, a sinhora impatou cumigo, purquê eu também num danço.
E foi em busca de um brotinho para sambar.
PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)
 

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