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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

BICHÃO

“Bichão” foi uma dessas pessoas singulares, que só aparecem de dois em dois séculos, como dádiva generosa da Natureza. De quase nenhuma letra, mas dotado de inteligência ímpar, possuía um talento todo pessoal para contar histórias e fatos, que encantava a quantos o ouviam. Conhecido menos pelo nome de batismo e registro que pelo apelido, pespegado pela maneira de tratar todo o mundo dessa forma, carinhosamente: “Ó, bichão… Você sabe, bichão… Mas é mesmo, bichão… et cetera, et cetera, et cetera“.
Jogador profissional do carteado, respondia ironicamente a quem lhe perguntava a idade, e, mal humorado, dizia:
— Tenho cem anos.
— Mas… Cem anos, Bichão?
— Sim, porque jogo há cinqüenta anos de noite e de dia. Portanto, já vivi cem anos.
Na mocidade, tocou “cabeça de tôco“, fole de 8 baixos marca “Veado“, nos sambas do sertão, e clarinete na filarmônica de “a” Santana dos Garrotes, pois fazia questão do artigo, ao se referir à terra natal.
Certa feita, na Santana, “digladiou-se” com um cantador de viola de Brejo Sêco, do Ceará, que apareceu na vila, desafiando os poetas locais para uma cantoria. Quem enfrentou a fera foi justamente Bichão, em peleja memorável e que fez rir a todos, para desespêro do vate cearense.
Para se conseguir de “Bichão” o relato do episódio, era necessária muita habilidade, muita paciência, pois êle, já no fim da vida, talvez não gostasse de reviver as aventuras inocentes da mocidade. A muito custo, o convencíamos a rememorar a indelével pendenga poética, para os santanenses que tiveram a ventura de testemunhá-la: Judivan Cabral, Conrado Gerônimo, “Fandinga“, Eu e mais outros, seus amigos.
— Não, bichão, não me lembro mais.
— Mas, Bichão…
— Isso foi invenção de Antônio Teotônio, Antônio Palitó e Antônio Cavalcanti, p’ra mangar d’eu.
— Por favor, Bichão…
— Bem, em 34, apareceu na Santana um cantador do Ceará, de Brejo Sêco, procurando fazer uma cantoria, p’ra ganhar dinheiro. Antônio Teotônio, Antônio Palitó e Antônio Cavalcanti, que eram muito “senvergonha”, vieram a eu e pediram p’ra eu cantar com o cabra. Eu disse qui não, qui num sabia cantar. “Ó, Bichão, p’ra gente se divertir. Você sabe que aqui não tem divertimento nenhum“. Mas eu num sei cantar… “Bichão, nós lhe damos duas garrafas de vinho do Pôrto, mas vamos fazer a cantoria, p’ra êsse cabra não sair dizendo que Santana não tem homem inteligente“. Concordei e êles foram preparar a cantoria, na casa de Irineu Teódulo, cunhado de Antônio Teotônio. E saíram de casa em casa avisando o povo p’ra assistir. De noite, a casa ‘tava cheia, com gente no meio da rua, querendo assistir eu cantar. Na sala, o cabra já ‘tava sentado numa cadeira, a viola pendurada no ombro. Antônio Teotônio tinha arrumado um picenez* do irmão dele, Clementino, e me deu p’ra eu botar e se rir mais d’eu. Me sentei do lado do cabra e começamo a cantoria. O cabra afinou a viola e começou tirando uns verso dizendo qui era letrado, qui sabia ler, sabia contar, diminuir, e sabia português. Eu num tinha viola, e quando ele terminou, eu bati na viola dele, ele fechou a cara e eu respondi:
Você diz qui sabe ler,
     Eu também sei português.
     Conta de somar sei muita,
     De diminuir sei três.
     Agora mi dê licença,
     P’reu botar meu picenez.
E tirei o picenez do bolso pequeno do palitó e botei nos óio. Menino, foi u’anarquia gerá. O cabra fez u’a carranca feia, pensando qui o povo ‘tava mangando dêle. Mas n’um era não. O povo mangava era d’eu, bichão, purquê nunca tinham visto eu de picenez. Aí o cabra começou a se afobar, disse qui era valente e fez uns verso dizendo qui num tinha medo de cara feia, me martratando. Aí eu respondí:
Triste do cantador,
     Qui eu lhe der na batida.
     Se não pegar no descanso,
     Pego sempre na dormida.
     Boto laço na vereda,
     Boto tingüi na bebida.
Aí, bichão, o povo num si agüentava de tanto rir d’eu, e o cabra se encabulou e se zangou mais, pensando qui o povo ‘tava anarquizando êle. Mas num era não, bichão, o povo ‘tava mangando era d’eu cum o picenez. Mas o cabra num entendia e pensava mermo qui era cum êle e tirou uns verso martratando a Santana, dizendo qui a Santana era terra de fuxiqueiro, qui o povo da Santana num tinha educação e coisa e tá. Aí eu respondí:
Tiro Crato p’ra barulho,
     Barbalha p’ra mansidão;
     Piauí p’ra criar gado,
     Pajeú p’ra valentão;
     A Santana p’ro fuxico,
     Brejo Sêco p’ra ladrão.
Aí, menino, o cabra deu um pulo da cadeira, e fungava de raiva, pensando qui o povo ‘tava anarquizando êle, e gritou: “Numa terra acanaiada como essa, num boto mais os pés”. Foi p’ro hotel, selou o cavalo e nunca mais apareceu na Santana. Aí, eu, Antônio Teotônio, Antônio Palitó e Antônio Cavalcanti fumo beber o vinho do Pôrto cum o povo todo atrás de nós, se rindo.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

 

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