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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

DR. QUINCA


O D.r Joaquim Florêncio de Alencar, D.r Quinca, foi Promotor Público, em Piancó, durante muitos anos, entre as décadas de trinta e cinqüenta, quando faleceu. Homem dotado de inteligência invulgar, espírito mordaz e satírico, não perdia vaza para fustigar os seus semelhantes. Certa vez, um matuto de Aguiar foi à sua casa constituí-lo advogado, vez que entrara em demanda com um vizinho de sua propriedade. O D.r Quinca pediu ao virtual cliente que lhe expusesse o fato gerador da pendenga, a fim de melhor situar o direito do infeliz, que se dizia turbado pelo lindeiro.
Em geral, o matuto sertanejo guarda o defeito da prolixidade em tudo o que vai expor. E esse pobre não era exceção à regra. Começou a descrever o quadro com toda a verbosidade matuta que Deus lhe dera. Mas, à proporção que desenvolvia a sua narrativa, acrescentava: “D.r, eu quero que o senhor faça assim, faça isso…“. Depois de cansativa meia hora de exposição, entremeada sempre do “D.r, eu quero que o senhor faça assim“, D.r Quinca, já saturado daquela lenga-lenga monótona, interrompe o pobre-diabo e o fulmina:
— Matuto imbecil, basta você contar o fato, porque o direito eu conheço e sei aplicá-lo.
x x x
O D.r Quinca patrocinava a defesa dos direitos de um proprietário de Nova Olinda em certa demanda possessória. Defendendo a outra parte encontrava-se Eloi de Almeida.
Eloi era de estatura pequena e excessivamente obeso, pesando cerca de 130 quilos. De poucas letras e raciocínio lento, às vezes rabulava, à míngua de rábula mais inteligente e preparado.
Em uma audiência de campo, presidida pelo Juiz da Comarca, D.r Laudelino Cordeiro, os peritos mediam o terreno litigioso, quando Eloi entendeu estar o seu constituinte sendo prejudicado com a perícia que se realizava. Requerendo, pela ordem, a palavra ao MM. Juiz presidente, para reclamar do que achava prejudicial ao seu patrocinado, saiu-se com esta “jóia“:
— Mas D.r Juiz, isso é uma jurubitança.
D.r Quinca, que já estava de bofes afogueados, replicou, ferino:
— “Jurubitança” o que, Bazar de Safadezas, exorbitância!
Eloi, então, permaneceu mudo durante todo o tempo restante da audiência.
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D.r Quinca, como todo ser humano, tinha o seu lado maquiavélico, também. E nele era terrível, posto que se tratava de inteligência rara.
Francisco de Assis Xavier, pernambucano de Triunfo e piancoense de adoção, também de inteligência admirável, era agente da Estatística do município. Era conhecido como “Fandinga“, alcunha ganha na infância e que se perpetuou, mercê de sua habilidade como goleiro de futebol. Contava ele um episódio que define bem a inteligência e o maquiavelismo do D.r Quinca.
Uma manhã, estava Fandinga em sua repartição, quando alí chega D.r Quinca, sorridente e esfregando as mãos.
— Você sabe que o Loureirinho foi nomeado Promotor de Princeza Isabel?
— Sei, Quinca, por quê?
— Porquê eu vou lhe preparar uma boa surpresa. Tem papel aí?
— Tenho.
— Dê-me uma folha.
Recebida esta, colocou-a na máquina e redigiu o seguinte telegrama: “Nominando Diniz – Princeza Isabel – PB. Nomeado Promotor aí Dr. João Batista Loureiro. Muito cuidado referida autoridade, cujo caráter não recomenda aos homens de bem. Abraços Elijosé“.
Contente, o D.r Joaquim Florêncio de Alencar mostrou a mensagem a Fandinga, que, espantado, indagou:
— Qu’é isso, Quinca?! Quem é Elijosé?
— Ora, meu amado – Retrucou bem humorado o D.r Quinca – Você sabe que Eliezer é sobrinho de Nominando (Eliezer comerciava em Piancó). Esse nosso telégrafo é uma graça. Só têm incompetentes e analfabetos. Tenho certeza que quando Nominando ler o telegrama vai dizer: Esse telégrafo não tem jeito, não. Trunca todo telegrama. Êste só pode ser de Eliezer.
Mas o Dr. Loureiro não era o que informava a insidiosa mensagem.


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

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