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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

JOÃO ÂNGELO


João Ângelo, sem embargo de sua seriedade reconhecida, era uma Don Juan quase que incorrigível. O administrador de sua propriedade era casado com uma morena ainda jovem  e dotada de muita beleza. Orçava ela pela casa dos trinta, idade em que os dotes físicos da mulher atingem o ápice, segundo os entendidos na matéria.
O marido era um ébrio quase contumaz, do que se aproveitou o patrão para conquistar-lhe a mulher. O romance iniciou-se rápido, facilitado pelo vício do marido e por seu afastamento para trabalhar na estrada, que se construía em um ano de sêca e da famigerada “emergência“, forma anacrônica da assistência governamental aos padecentes do fenômeno atmosférico.
A “união” corria mansa e tranqüila e o “casal“desfrutava  de eterna lua-de-mel, que viria a ser perturbada por fato corriqueiro nesses episódios.
Um matuto, dali mesmo, emigrara para o Estado de Goiás, na tentativa de fugir da sêca e tentar melhor sorte naquele Estado, que, à época, era o eldorado brasileiro. Passou por lá uns dois anos, onde amealhou alguns trocados, regressando aos pagos, talvez por inadaptação ao clima, talvez saudades da terra ou mesmo para investir, em algum trato de terra, o fruto do seu trabalho.
Chegou todo “lord” e falante, com pinta de conquistador vulgar e novo-rico. Não foi difícil iniciar namôro com a vizinha, às escondidas, naturalmente, de João Ângelo, eis que o caboclo era jovem e adquirira a algaravia dos peões do centro-oeste brasileiro. Além do mais, era um palrador nato, sem contar com a indumentária que trouxera, composta de chapéu de abas largas, calças e camisas faroeste, botas de canos longos, que fascinava as matutas desconhecedoras daqueles trajes meio exóticos. Assim, não levou muito tempo o casanova matuto a adquirir a admiração e as boas graças da sedutora vizinha.
O dono da fazenda, habitualmente, saía de Piancó no ônibus das 6 horas da manhã, às terças-feiras, regressando, invariavelmente, no das sextas-feiras, às 3 da tarde. E nêsse interregno, que medeiava entre a sextas e têrças-feiras, o don juan sertanejo deliciava-se na cama da fogosa cabocla.
Um dia, porém, o proprietário adiou o seu regresso a Piancó para o sábado, pegando a formosa amante de surpresa, que não teve tempo de avisar o seu galã favorito do desagradável incidente. Assim é que, na hora habitual, lá para as 9 da noite, João Ângelo encontrava-se refestelado no leito que mantinha, quando ouviu soarem pancadas dadas na porta. Desconfiado, perguntou:
— Dona Julieta, ó dona Julieta, parece que estão batendo à porta?
A formosa Afrodite, dissimulando sem muita inteligência, respondeu ao desconfiado pagador:
— Não é nada, não, seu João. Devem ser os porcos.
E o incrédulo fazendeiro, replicou:
— Mas porcos, dona Julieta, batendo no “frechá“?
A infiel “companheira” passou, então, a tartamudear.
No sertão, frechal é a parte mais alta do caixilho de uma porta.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

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