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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

MAJOR BATISTA



De São José do Egito, Pernambuco, veio, nas primeiras décadas do século, para Piancó, João Batista Vieira de Melo (“Major Batista” ou, ainda, “Major Batistinha“, na intimidade), moço ainda, fixando-se, no “velho guerreiro“, até a sua ida para o céu. Posteriormente, um filho seu, Fernando, também emigrou para Piancó, onde constituiria família, casando-se com Rita Lima, filha do Capitão João Leite Lima, Tabelião do 1º Ofício da Comarca, a quem o genro sucedeu o ofício judicial. Fernando contrairia segundas núpcias com Dalva Lima de Azevedo, após o falecimento de sua primeira esposa.
O Major Batista, além das qualidades morais que dignificam o homem, era dotado de inteligência singular e de agudo senso crítico e fluente palestra, razão porque todas as manhãs, a calçada de sua loja enchia-se de amigos para ouvirem a sua prosa encantadora e as sibilinas farpas, que arremessava contra quem lhe caía no desagrado.
Nós, meninos da época, também participávamos como ouvintes, em companhia do seu neto Airton, que lhe herdou os dotes de inteligência e inteireza de caráter. Com a curiosidade e o espírito infantis, passávamos horas embevecidos com as tiradas memoráveis de Major Batista, lançadas contra seus “infelizes inimigos“.
O comércio de Piancó, nos meus tempos de infância, concentrava-se em um amplo largo que o povo chamava de “quadro” e que, hoje, é conhecido como “rua Velha“. Ali se estabeleciam os grandes e pequenos comerciantes, sendo, ainda, realizadas as feiras semanais, nos dias de Segundas-feiras, como ainda hoje.
Ao lado direito do empório do Major Batista, situava-se a loja de tecidos do S.n.r José Crizanto Diniz, uma das maiores da cidade, com a qual rivalizava apenas a “Loja Brasilino“, de propriedade de Pedro Brasilino, abastado fazendeiro e comerciante piancoense. Disputavam as duas a preferência da população, originando-se, daí, uma animosidade acirrada entre os seus proprietários, a ponto de romperem as relações pessoais.
Não sei porque razões, e isso não nos interessa muito, Major Batista inimizou-se com o seu vizinho e colega de comércio José Crizanto, passando a devotar-lhe indisfarçável ojeriza. O cáustico Major Batista não perdia vaza de criticar, ferinamente, o seu rival, sobretudo nas rodas que se formavam em sua calçada nas manhãs rotineiras do pequeno burgo sertanejo. Para isso, sempre contava com a ajuda óbvia de Pedro Brasilino, inimigo de José Crizanto, como já se disse.
Certa manhã, ao abrir as portas de sua loja, Zé Crizanto exibia vistoso cofre que adquirira em Campina Grande, aonde fôra abastecer-se de mercadoria e de onde chegara na noite anterior. Fazia-o orgulhosamente e com o fito único de provocar o seu intransigente e mordaz rival. O propósito, sem dúvida, era o de humilhar Major Batista. Êste, que também abria as portas do seu estabelecimento à mesma hora, divisou aquele objeto estranho na loja do seu inimigo e deve ter ficado magoado com a afronta do seu vizinho, o que lhe era imperdoável, e ficou aguardando a hora para devolver a desfeita inominável, de que estava sendo alvo. Nesse exato momento chega Fandinga, que já tomara o seu café e vinha cumprir o seu ritual diário, que era o de conversar e ouvir as amenidades do seu estimado coestadano.
Ao subir, Fandinga, a calçada de Major Batista, foi logo ouvindo dêste, que lhe dizia com a sua inconfundível voz meio espremida:
—- Fandinga, ó Fandinga, temos novidades das boas, já sabe?
—- Não, Batista, qual é? Das boas mesmo?
—- Sim, Fandinga, das boas mesmo.
—- Então, diga logo, Batista, que já estou curioso.
—- Olhe p’ralí, Fandinga, e veja: Zé Crizanto comprou cofre p’ra guardar ovos…
É que Zé Crizanto, nessa época, vinha sofrendo dificuldades financeiras face a insidiosa crise que atravessava o comércio da pequena cidade.
E Fandinga soltou uma das suas tonitruantes gargalhadas.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

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