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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

MAJOR RAIMUNDO DE PAULA


O velho Raimundo de Paula e Silva, meu parente ainda, era abastado proprietário e fazendeiro no município de Nova Olinda, antigo distrito de Piancó. Também possuía propriedades neste último. Homem de coração largo e gestos francos, nunca, porém, conseguiu pronunciar as palavras corretamente, apesar de, como observava minha avó paterna, sua grande amiga, conviver com pessoas de nível médio e superior, gente de boa cultura humanística e científica. Era empedernido, mesmo, o velho, no assassinar “a última flor do Lácio, inculta e bela“.
Para ilustrar o seu temperamento folgazão e pródigo, relatarei um episódio ocorrido no meu tempo de ginasiano, na cidade de Patos.
Corria o ano de 1944 e vivíamos a festa de Nossa Senhora da Guía, padroeira do próspero burgo sertanejo, celebrada no mês de Setembro de cada ano, como hoje, porém já sem o esplendor daqueles tempos. O nosso Diretor, P.e Manoel Vieira, ou P.e Vieira para os seus alunos, encontrava-se, nesse período, no Rio de Janeiro, participando de um Congresso de Diretores de Ginásios e Colégios, convocado pelo Ministério da Educação. Passou, por lá, cerca de um mês, deixando o Prof. Manoel de Sousa Oliveira com a responsabilidade da direção do Ginásio.
O Prof. Oliveira é uma figura humana extraordinária. Estimadíssimo dos seus alunos, caracterizava-se por sua sapiência e liberalidade de espírito. Estabeleceu o horário para os internos freqüentarem as barracas, determinando a volta ao internato nos seguintes moldes: menores, às onze horas da noite; e médios e maiores, ao término. Era uma inovação que agradou sobremaneira a todos, contrariando apenas a “don Pedro“, bedel-mor do internato e chefe dos demais “atalaias“, como pejorativamente os batizamos. “Don Pedro“, que não simpatizava muito com o Prof. Oliveira, nem se conformava em tê-lo como superior hierárquico, pois ambicionava o comando, diariamente telegrafava ao P.e Vieira inventando coisas e procurando denegrir o Prof. Oliveira. As tramas de “don Pedro“, no entanto, resultavam negativas para ele e nos favoreciam, vez que, a cada aleivosia por ele engendrada, o prof. Oliveira mais democratizava o rígido regime do internato.
Uma noite, saímos Eu, Walter Braga e Zé Ferreira Lima em demanda das barracas e demos um balanço no capital, para podermos freqüentá-las sem maiores constrangimentos. Somamos, os três, uns trinta e cinco mil réis, o que daria para umas quatro “Teuthônias” e alguns pedaços de galinha, restando alguns trocados para a noite seguinte, que seria a última da festa.
Ao chegarmos à r. Solon de Lucena, que era o local onde se instalavam os pavilhões, em frente à Sorveteria Iracema, deparamo-nos com o Major Raimundo, como sempre elegantemente trajado no seu terno branco, de linho irlandês HJ, chapéu de palhinha chileno e sapato de duas côres, branca e marrom. Cumprimentamo-nos efusivamente, tendo-lhe eu apresentado os meus dois colegas e queridos amigos.
— Ah, jovens – disse o major – além de amigos de Felizardo, seus pais são meus amigos também, e vocês ficam fazendo parte da amizade.
Depois de um breve diálogo, indagou-me ele:
— Tem dinheiro p’ra festa, Felizardo?
— Tenho, sim, major – respondi-lhe.
— Tem nada. Já viu estudante ter dinheiro. Tome aqui.
E tirando a carteira do bolso interno do paletó, deu uma cédula de duzentos mil réis, que significavam uma verdadeira fortuna para três estudantes lisos.
— Estou ali na barraca, e vocês vão p’ra minha mesa – arrematou ele.
Evoquei o episódio tão só para identificar o coração franco e magnânimo do velho fazendeiro piancoense.
Como já disse antes, o major Raimundo era fértil em disparates, em virtude de sua incapacidade para pronunciar, corretamente, as palavras e assimilar o seu significado.
Nos meus tempos de infância, estava em voga uma gíria muito usada em relação às mulheres bonitas. Quando a moça era realmente bela e se indagava “que diz de fulana“, o elogio máximo à sua beleza deslumbrante era: “um paquete“.
Para os que não sabem, “paquete” era o nome dado aos navios de luxo, aos grandes transatlânticos que cruzavam os mares, conduzindo milionários da Europa e Estados Unidos nas suas viagens pelos continentes. Verdadeiras cidades flutuantes.
Certa vez, o D.r Djalma Leite, que clinicava por esses tempos no Estado do Ceará, veio visitar a família, acompanhado da namorada e de uma amiga desta, uma balzaqueana simpática e fornida de carnes, nada desprezível. Hospedaram-se em casa da velha Doninha, avó do jovem médico e do escrevinhador dêsses episódios, a qual era matriarca da família.
O velho Raimundo de Paula, viúvo e suspirando por novo matrimônio, atirou-se à balzaqueana com todo o seu palavreado ininteligível, na esperança de conquistar-lhe o coração. E dizia-lhe em momento de “rara inspiração“: “menina, você é um ‘piquete’“, em lugar de paquete. Nesse instante, entra na sala, onde conversavam as moças, a dona da casa e o velho fazendeiro, Zuca Teotônio, genro de D. Doninha. Sentindo o constrangimento da moça, Zuca interrompeu a palestra e interpelou o major Raimundo, conduzindo a conversa para um assunto que ele conhecia profundamente, e que interessava a todo proprietário no sertão:
— Então, Raimundo, você que vem de Campina Grande, dê notícias do algodão (do preço).
O velho, com a autoridade de produtor e exportador, saiu-se com esta:
— Você sabe, Zuca, que o argodão é o termomo mundiá fos fenomo do Brasí.
Zuca, naturalmente, deixou que o apaixonado prosseguisse com os seus ditirambos amorosos.
x x x
Talvez o único piancoense, além de Conrado Gerônimo, a se submeter a exame pré-nupcial, haja sido o major Raimundo de Paula. No início da década de cinqüenta, contraiu ele novas núpcias. Antes do casamento e a convite de uma sobrinha, Antônia, casada com o D.r Fernando Rodrigues e que residia no Rio de Janeiro, pegou um Constellation no Recife, desembarcando na “Cidade Maravilhosa“, e ali realizou todos os exames necessários.
No seu regresso, demorou-se uns dois dias na capital pernambucana, onde eu fazia o meu curso de direito.
Abílio Leite Rodrigues, meu primo, sobrinho, por afinidade, do querido major e que cursava medicina, telefonou-me avisando-me: “Felizardo, tio Raimundo voltou hoje do Rio e está hospedado no Hotel Avenida. Vamos jantar com ele, hoje“.
A notícia era um verdadeiro presente dos céus para quem residia em pensões e na Casa do Estudante. Combinamos, e às sete horas da noite nos dirigimos ao apartamento do nosso querido parente, que já nos aguardava envergando vistoso terno de casemira azul, talhada em uma das mais tradicionais casas do ramo da antiga Capital da República. Descemos ao restaurante (à época dizia-se refeitório) e nos deliciamos com lauto jantar, regado com o legítimo Vinho do Pôrto.
Terminada a refeição, o major Raimundo indagou do garçon quais as sobremesas servidas, obtendo a resposta: “Compota de goiaba, de pêssego, de figo, de caju e… manjar do céu“.
— Ah! – Suspirou o inesquecível fazendeiro – Traga manjar do céu para mim, pois tudo que vem do céu é bom.
Quando o garçon trouxe a sobremesa solicitada, o major Raimundo espantou-se e disse:
— Garçon, isso é que é manjar do céu?
— É, sim, senhor. Por quê o senhor pergunta?
E o major, com gravidade:
— Porquê, garçon, isso, na minha terra, se chama “purdim“.
E assim morreu o nosso estimado e nunca assaz lembrado Major Raimundo de Paula e Silva, sem jamais familiarizar-se com a prosódia e a sintaxe.

PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)

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