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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

PADRE MANOEL OTAVIANO




Padre Manoel Otaviano de Moura Lima, para todos simplesmente Padre Otaviano, foi o que de melhor Santa Maria, hoje Ibiara, poderia ter dado a Piancó. Ordenado há pouco tempo no Seminário de Teresina, Capital do Piauí, chegou a Piancó nos idos do ano de 1912, para substituir, como Pároco, o Padre Aristides Ferreira da Cruz, que fôra afastado das funções e suspenso de órdens pelo Arcebispo Dom Adauto, como castigo por suas querelas políticas com o D.r Felizardo Leite, Deputado Federal e chefe político prestigiado da região.
O talento de Padre Otaviano dispensa apresentação mais profunda, imortalizado que se encontra na sua produção literária, em obras como “Mestre Mundo” (teatro), “Emboscadas do Destino“, “Tomaz Cajueiro“, e “Chefe Político” (romances), “Inácio da Catingueira” (conferência e ensaio literário sôbre o maior cantador da Paraíba e do Nordeste), e “Os Mártires do Piancó” – e não A Coluna Prestes na Paraíba, como criminosamente o rebatizaram em reedição infeliz – , relato magistral da resistência épica dos piancoenses à passagem daquela brava Coluna Militar pela cidade, a 9 de Fevereiro do ano de 1926. Citei, aqui, os livros do notável sacerdote, escritor e brilhante orador sacro, porque o episódio a ser narrado liga-se, diretamente, à sua obra “O Chefe Político“, que, como estudo sócio-político do nordeste, é muito mais substancioso que outros, fartamente idolatrado pela análise passional.
Mas vamos ao episódio, que êste libreto pretende, apenas narrar os fatos pitorêscos e reais ocorridos no “Velho Guerreiro“.
O Padre Otaviano entregara ao Deputado Federal Drault Ernany, que prometera reeditar o seu romance, os originais de “O Chefe Político“, considerado pela crítica especializada como sua obra-prima. Correu o tempo, e o representante paraibano junto à Baixa Câmara do Congresso Nacional emudeceu, por completo, apesar das reiteradas cobranças do Sacerdote escritor.
Chegou o ano de 1962 e, com êle, mais uma festa do glorioso Santo Antônio, padroeiro do município, celebrada na primeira quinzena do mês de Junho. Como era ano de eleição para renovação do Congresso Nacional e de Assembléias Estaduais, além do D.r Salviano Leite, filho da terra e Presidente do Consêlho Superior das Caixas Econômicas Federais, e do Senador Ruy Carneiro, que nunca deixaram de assisti-la, a cidade encheu-se de outros políticos que caçavam votos para alcançar um mandato ou uma renovação. Também foi demonstrar a sua devoção o Deputado Drault Ernany, que postulava sua reeleição e há tempos sumira daquelas plagas.
Após a procissão, foi jantar entre outros, na residência de dona Chiquinha Leite, genitora do D.r Salviano, o Deputado Drault Ernany. Lá encontrava-se, também, o Padre Otaviano, como amigo dileto da família e freqüentador assíduo da casa. Aproveitando o encontro, o Padre cobrou ao Deputado a promessa que êste lhe fizera de reeditar o seu livro. O Deputado, sem jeito, tentou justificar:
— Padre, o senhor vai me perdoar, mas perdi os originais do seu romance.
O Padre Otaviano, perplexo, sem querer acreditar no que ouvia, pulou da cadeira de balanço em que se encontrava, como que impulsionado por mola invisível, e atacou:
— Você é um irresponsável, Drault!
— Não, Padre…
— Um irresponsável, sim. Um livro, Drault, é um filho. Nasce das entranhas. Você não compreende isso porque é uma toupeira.
O Deputado Drault Ernany avermelhou, também se levantou de sua cadeira, qual fôsse agredir o ministro de Deus, que permanecia de dedo em riste a invectivá-lo. Os presentes intervieram, contornando o incidente. Serenado o constrangimento, o Deputado ainda tentou justificar a sua inconseqüência:
— Padre, sei que a minha negligência foi imperdoável. Porém, para compensá-lo, trouxe-lhe de presente do Velho Mundo, uma verdadeira relíquia. Como o senhor sabe, fui à Europa e, na minha passagem por Roma, conseguí uma audiência com o Santo Padre. Disse, então, à Sua Santidade, que desejava trazer êste têrço para o senhor, narrando-lhe as suas virtudes e o seu incansável trabalho de evangelização nêstes sertões inóspitos, durante meio século. Aqui está a relíquia (o têrço), que foi bento por Sua Santidade, especialmente para o senhor.
O Padre, cuja fúria não se acalmara de todo, levantou-se, novamente, da cadeira e disparou:
— Drault, você não me consola com isso, não. Essa porcaria eu também benzo e tem o mesmo valor.
E tinha mesmo!


PIANCÓ – FIGURAS E FATOS
por Felizardo Toscano Leite Ferreira Néto (* 5 de março de 1.930 + 27 de fevereiro de 2.001)
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