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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

POR QUE SOU PIANCOENSE?


Primeiramente, porque nasci e ali desfrutei da sombra; do sol; das tardes; das manhãs; das noites e de todos os momentos oferecidos pelos dias dessa cidade rica de sabores e de amores puros, presentes nas mentes quentes de um povo tão acolhedor, independentemente da situação de cada pessoa.   
Cresci vendo e sentindo a seca e os horrores de suas causas; os conflitos das casas e as suas dificuldades... Cresci estudando em colégios de ricos e de pobres, onde não existia tal diferença e lacuna... As freiras eram testemunhas daqueles ensinamentos... Seu Cirilo e dona Rosa, que moravam na lateral do Colégio Santo Antônio, fabricavam as hóstias paras as missas naquele educandário... O que se levava em conta eram a tradição, o conceito e a harmonia linear, seguidos entre todos que ali desfrutavam aquele prazeroso ciclo de vida... Tudo tinha uma harmonia natural... Não existiam subterfúgio nem interesse político selvagem... 
Meus pais são: José Ventura de Souza, alfaiate, Joana Lúcio Ventura, professora. Os segredos, além das roupas, eram confiados ao meu pai, que os ouvia, dando o devido conselho. Hoje, ele é esquecido por alguns, mas lembrado por outros.  Minha mãe foi professora do Colégio Ademar Leite e do Grupo Alto Belo Horizonte... Era detentora do futuro das crianças e dos jovens que a procuravam recebendo dos seus ensinamentos os conhecimentos para o sustentáculo de uma base sólida de um futuro promissor... 
Conheci o Rio Piancó e o Riacho do Conselho, durante as cheias do inverno, quando enchia e molhava, com intensidade, os campos; as ruas e os mananciais, complemento da felicidade da minha infância e adolescência... 
Aprendi a nadar, em cima de uma caixa de isopor, no açude de Neco Moreira, próximo ao Rio Piancó e a propriedade de Leonel, aquele que tinha um “caroço” nas costas, onde tinha maravilhosos pés de mangas que mangavam, antecipadamente, do meu futuro... Quantos caminhos percorridos em sua direção! Quantas corridas de camisa e alpargatas nas mãos pelos córregos e caminhos espinhosos, sem direção!  
No meio daquela caminhada, cheia de aventuras, sentia o cheiro das frutas; ouvia os sons de passarinhos, brincando pelos galhos e pelos ninhos... Via as cobras e os calangos se arrastando pelo chão; os animais no pasto; as crianças de pés descalços, brincado de futebol no meio da rua; o voleibol; o de bola de gude; as brincadeiras de pião; de carros de flandres; de notas de cigarros; de pipa; de pião; de bicicleta; de bizuri; de bandeirinha e de outras entretenimentos que nos separavam do mundo real, além das prosas prazerosas...
Ali, eu crescia e via as brigas de galos; de canários; via os bêbados nos finais de feira cambaleando e se apoiando no muro da lateral do Colégio Santo Antônio, vizinho à minha residência, querendo chegar ao destino final; ouvia os rezadores, quando alguém os procurava para curar a doença do seu filho ou de alguém da família; a descobrir o autor de algum roubo praticado ou a causa de um incêndio acontecido; ouvia a melodia mais linda vinda das cantorias e dos aboios; as experiências e as histórias fantasiosas, regadas pelas as de lobisomens, entre outras, contadas pelos “asilados”(estudantes; engenheiros; médicos; professores; agricultores, entre outros), na alfaiataria do meu pai, quando eu ainda era menino, deitado em cima daquela mesa cheia de retalhos de panos e do cheiro do ferro quente na almofada que servia de travesseiro para minha cabeça, embalando os meus sonhos de um dia ser vaqueiro... 
As músicas de outrora eram lindas e continuam, até hoje, me dando profunda emoção, principalmente as tocadas pelas orquestras nos grandes carnavais, comandadas por Mestre Elizeu; Nêgo Lula e outros donos daqueles dons ofertados por Deus; na Festa de Santo Antônio e nas ocasiões dos bailes realizados no Piancó Clube.
Do Parque de Seu Lima, quando da sua chegada nos festejos da festa do padroeiro de Santo Antônio, no mês de junho? Era uma só alegria... Namorados de mãos dadas desfrutando das missas e das carícias inocentes, vivenciadas nos cantinhos escuros das árvores na Praça Salviano Leite... Das músicas tocadas na rádio difusora, comandada por Asuélio, conhecido por Nitrozim, entre elas, a Praça, cantada por Ronnie Von, eternizando aqueles momentos? E o possível pecado ou culpa eram resolvidos com orações nas quermesses realizadas na Igreja Velha ou quando das missões de Frei Damião.  
Quem não se lembra do velho Macena? Aquele que participou da Coluna Prestes em 26 de fevereiro de 1926, quando foi assassinado o Padre Aristides. Foi ele, com aquela mão e dedos enrugados pelas balas e pelo tempo, que me ensinou, quando eu tinha 12 anos de idade, a comprar carne e a fazer a feira para minha casa... 
De Severino Ventura, meu tio, embora não formado, que construiu várias casas, até mesmo a cadeia pública de Piancó e de outras construções em Brasília-DF, assombrando os arquitetos e engenheiros daquele lugar? 
Dos barbeiros: Santo; Antônio Palmeira e Antônio Sabino, que cortavam os nossos cabelos pretos, hoje pintados de brancos pelas nossas lembranças e práticas de vida? 
Certo dia, minha mãe me deu dinheiro para cortar o cabelo e, desviando o caminho e o objetivo, juntamente com o meu primo Diô, fomos comer pão doce com refrigerante “fanta”, na época, de vasilhame de vidro, na “bodega” do Seu Plínio Ventura, primo do meu pai... Foi tanto barulho e aflição... Castigos e surras serviram de lição e de presenças curiosas marcantes pelos meus primos e familiares... 
E da sorveteira de Dino, em que os sorvetes molhavam as nossas roupas e os nossos desejos em chegar logo o horário da festa lá no Piancó-Clube ou no Bope? 
E das ruas: a Mascarenhas de Morais, que não esqueço jamais; a Rua Velha; a Rua Nova e as demais que faziam parte dos acontecimentos únicos de cada episódio? 
Pessoas sentadas nas calçadas debulhando conversas, fofocas e risos, enquanto outras ouviam pelo rádio a “Hora do Brasil” ou narração de jogo de futebol... 
E o Mercado Público? Dono de todas as atividades comerciais que soletrava, em especial, às segundas-feiras, com o ganha-pão de cada um, onde constava o peixe nas calçadas de Dona Porcina; as redes de dormir e de pescar; as frutas; as verduras; os cereais; as alpargatas; os tecidos; os perfumes; as panelas de alumínios; os condimentos; os alimentos; os produtos defensivos e agroindustriais; as gaiolas; os pássaros; as galinhas; os perus; porcos e outras caças; o açougue, com o piso todo enlameado da salmoura advindo da carne e os cachorros  farejando aquele local.  E no final um tiro ou um corre-corre, provocado por uma discussão sem futuro, no escurecer do beco da padaria de Justino Leite.
Lembro-me de Raimundo Gervásio, colega de infância, que não conhecia a cidade de Campina Grande, mas não tinha condições de visitá-la. Certo dia de feira, correndo com Nerivaldo Badú pelas calçadas daquele logradouro, ele, escorregou em uma casca de banana e, então, teve que se deslocar para aquela cidade, a fim de ali se submeter a uma cirurgia no braço. Chegou feliz em Piancó, porque atingira seu objetivo, ou seja, ter conhecido Campina Grande, embora com o braço enfaixado. 
Das peladas de futsal na quadra do Colégio Normal Santo Antônio e do Piancó-Clube; do futebol de campo nos Oitis; ao lado da Igreja do Rozário e no “Granitão”?
Dos “cabarés”, distribuídos pelos cantos escondidos da cidade para atender aos reclames recolhidos da jovialidade e da fragilidade daqueles errantes?  
E das autoridades que nos provocavam respeito; admiração e até medo? Entre elas: padre; prefeitos; médicos; delegados, e demais personagens que não dá para nominá-las.  
Nunca tive vontade de sair de Piancó, mas as condições e as oportunidades não me favoreceram. Fui impulsionado a encontrar uma outra situação de vida, assim como outros que aqui estão e passaram pela mesma situação. 
Hoje, distante da minha cidade, a cada dia me aproximo mais dela, através das minhas lembranças que as transfiro para os meus escritos; das notícias dos conterrâneos; dos sites e dos blogs, espalhados em todo Estado, que afloram, ainda mais, o meu âmago e a minha força positiva para com os piancoenses que ali residem; resistem e lutam contra as intempéries naturais e os planos ou projetos nocivos, impregnados; injustiçados; desenfreados e aliciados por um poder ou sistema político totalmente descompromissado com as nossas raízes e/ ou causas culturais, econômicas-financeiras e sociais.
Sempre acredito e respiro a esperança de que um dia o nosso povo não se deixará enganar por uma dose de ajuda ou um respingo de promessa de um paliativo qualquer, para que possa enxergar e lutar em busca de uma vida digna.
Em qualquer local, sou muito feliz em ser piancoense natural, mesmo distante fisicamente. Por isso, digo que Piancó está sempre presente no meu coração e na minha mente! 


José Ventura Filho
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