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sábado, 17 de fevereiro de 2018

SONO PESADO

A partir de hoje, motivado por alguns amigos, vou contar, de vez em quando, algumas reminiscências que me trazem saudades e que marcaram a minha vida. Há algum tempo atrás, toda vez que visitava Piancó, minha terra querida, ao subir à rua principal para a minha obrigatória visita a Santo Barbeiro, Assis Remígio e Galego da Discoteca, encontrava meus amigos de infância e, entre eles João de Joval e Pedro de Tota Freire. 

Como sempre, surgia o convite para caçar ou pescar. Certa vez, na calçada da barbearia, acertamos que a caçada seria no Barrento, na propriedade do meu tio Djalma Ângelo. Naquela época, não havia o rigor da lei e nós não tínhamos nenhuma consciência ecológica. Na verdade, hoje, já não pratico esse hobby.

João de Joval, como sempre, se encarregou de arranjar um cachorro bom de caça e as redes para a pescaria. Eu entraria no “racha” para comprar os mantimentos e pagar o carro de praça que nos levaria até Catingueira. Tudo pronto, seguimos viagem. Mas, antes de chegarmos ao local da caçada aconteceu um imprevisto.

O cachorro que João tomou emprestado a um amigo dele lá da Rua Nova não estava acostumado a viajar de carro e vomitou dentro do veículo, deixando o motorista furioso que, por sua vez, ameaçou nos despejar no meio da estrada. João, irritado, queria resolver o problema ao seu modo, ou seja, “no pau”. Depois de uma discussão tremenda, “desce não desce”, consegui conciliar as partes e, após de uma limpeza rápida, seguimos viagem.

Finalmente, chegamos ao açude da fazenda, que fica ao lado direito da BR Redenção do Vale, no sentido Piancó-Patos. Preparamos o rancho, fizemos o jantar e passamos as redes dentro d’água. Nossa comitiva era formada por mim, João de Joaval, Lucimar e Caramba de Cula. Mais tarde, se juntaram a nós, tio Djalma, Mané Firmino e Djalma Júnior. 

Pra variar não pescamos nenhum peixe, mas fizemos um jantar improvisado com os mantimentos que levamos. Bebemos muita cachaça para espantar o vento frio que soprava. Foi nesse dia que Mané Firmino, “comendo corda” de Djalma, e bêbado que só a gota, pegou numa brasa de fogo com as mãos para ele acender um cigarro.

Escureceu. Às 9 horas da noite, saímos para caçar numa aba de serrote que ficava perto do açude. “Ali deve ter tatu demais Orlando”, profetizou João, muito otimista como de hábito. Como tudo foi organizado de última hora, só levamos um farol, insuficiente para iluminar o caminho para quatro pessoas caminhar dentro do mato, serra à cima, num terreno acidentado como aquele onde estávamos. 

Surgiu aí a primeira parte engraçada da estória. João seguia na frente com o farol, eu logo atrás dele, Caramba depois de mim e Lucimar por último, gaguejando e conversando sozinho por força da embriaguez.

De propósito, João andava depressa, sempre seguido de perto por mim. Os que vinham mais atrás reclamavam da escuridão e diziam palavrões de todo tipo, principalmente Lucimar. Ao chegarmos num terreno muito acidentado e cheio de pedras, ouvimos um grande barulho, semelhante à derrapagem de um carro numa curva fechada. 

Quando olhamos para trás com a ajuda da luz do farol, vimos Lucimar “catando cavaco” numa posição idêntica a de um esquiador na neve. Mas o que nos deixou curiosos foi o barulho, tendo em vista que o solado de botas não fariam aquela zoada. 

Quando chegamos mais perto e João jogou a luz do farol em cima dele foi que notamos a presepada: Lucimar estava calçado com chuteiras de futebol, meiões e tudo. Gritava: “Ai meu Deus, me acuda aqui”. Ninguém moveu uma palha para acudi-lo. Foi mais de meia hora de risos e gozações. Lucimar gaguejando e praguejando mais do que o habitual mandou tudo mundo se lascar e desfiou um incontável número de palavrões.

Passado este divertido imprevisto, seguimos em frente. O cachorro que tomamos emprestado era ruim de caça até dizer basta e não saia de nossos pés. João justificava dizendo se tratar de um cão inexperiente, mas a verdade era que o bicho era “gozo” mesmo. 

Já estávamos ficando irritados e com muito sono provocado pela aguardente, quando ouvimos o cachorro latir não muito longe de onde estávamos. “Ele ta ‘falando acuado’. Eu não disse que o danado era bom de caça compadre”, gritou João andando apressado e eufórico para o local dos latidos. Quando chegamos lá, o encontramos latindo ao pé de uma pedra.

Meu compadre, mais uma vez, profetizou: “deve ser um tatu”. Nos preparamos para arrancar o bicho. Enfiamos varas no buraco, cavamos, fizemos de tudo e nada do tatu aparecer. Suando por todos os poros, João de Joval nos pediu silêncio, pois ia escutar se tinha alguma coisa no local onde estávamos cavando. 

Ficamos todos calados e ele se deitou dentro do buraco, se ajeitou e ficou imóvel. Haja o tempo passar e nada de João se levantar. No início, quando eu o chamava ele ainda dava um sinal com a mão mandando esperar. Depois de algum tempo, nem isso fazia mais. 

Quase uma hora depois, não agüentando mais a demora, fui ver de perto o que se passava com ele. Bati em João e nada dele dar sinal de vida. Irritado peguei o farol, cheguei perto e iluminei. Tamanha foi minha surpresa quando vi que João de Joval dormia profundamente dentro do buraco. 

Comecei a cutucá-lo com a ponta do cabo do cavador e, depois de muitos protestos, ele acordou sorrindo e com a maior cara de pau do mundo foi logo dizendo: “aqui não tem porra nenhuma não, home”. Foi aquela gozação. A caçada terminou aí. Também pudera, depois dessa.

Publicado originalmente por Orlando Ângelo

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