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sábado, 6 de abril de 2019

De volta às águas do Rio Piancó



Até que enfim chegou um pouco de água no nosso rio Piancó, hoje tão cansado de tanta espera e aflição. É de dar dó... 

Ainda não cheio, de barreia a barreira, mas espero que em breve ocorra esse momento mágico e necessário, porque só assim as boas lembranças virão à tona, detonando a pulsação da emoção e do grito de esperança guardada por um povo trabalhador, humilde e honesto, mas sofrido e desassistido...

Embora esteja na ausência do seu corpo físico, tão bem desenhado pelas curvas geográficas, tendo sua origem lá na Serra Dona Inês, em Conceição-PB e o seu destino final nos braços do açude de Coremas-PB, descortinarei o véu da alegria e da nostalgia, reclamado há muito tempo dentro de mim...

Suas águas eram remédios para cicatrizar as mágoas dos dias escaldantes, gritando pela salvação da sede provocada nas casas desprovidas, nas plantações sofridas e nos animais raquíticos demais...

O banho puro naquelas águas tão lindas não tinha preço, nem endereço de perdição. Era simplesmente um lugar fértil de criação ofertado pelo mundo subjetivo e vivido de uma criança, sem qualquer apego às coisas materiais... 

O amanhecer era o convite desejado por todos os seus visitantes para caírem nos braços da sonoridade e da beleza estonteante na leveza da sua correnteza... 

As folhas verdejantes das árvores seculares, sopradas incansavelmente pelo vento, comunicava a chegada daquele evento memorável... As suas sombras acolhiam o descanso do guerreiro extasiado de prazer... 

Os cantos dos passarinhos em notas breves e suaves entoavam as mais perfeitas melodias, adornando aquele espaço fantástico...

Os animais rasteiros se acasalavam, correndo sem direção pela ribanceira, em busca de suas presas ou fugindo das mãos certeiras dos seus algozes... 

Os diversos peixes saltitavam sem compromissos e sem previsão do perigo iminente...

As sereias, sem donos, naquelas areias transparentes, eram fotografadas pelos olhos estupefatos e pidões... 

O pôr do sol acobertava o sussurro profundo da efêmera felicidade... E a velocidade das horas anunciava, inesperadamente, no ouvido da reclamação a implacável quebra de toda aquela magia. Era o pior castigo sentenciado pela mão do tempo, filho da mãe- natureza... 

Assim, afogado em lágrimas de saudade que caem freneticamente dos meus olhos, procuro em meus sonhos voltar às águas puras do meu rio Piancó.

José Ventura Filho

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O VELHO PIANCÓ

  
Refrão:
É de fazer pena
É de fazer dó
Os políticos afundaram
A cidade de Piancó


A maioria das ruas/tem nome de caneiros
Aprovado pela Câmara/porque são interesseiros!
Quando chega a eleição/é aquele desespero/trocando o eleitor/
Por cimento e por dinheiro


Piancó tinha cinema,/acho que você se lembra.
Um campo de aviação/esse foi para o Japão.
Uma usina de reciclagem./ Ta dentro do matagal
Tinha uma tecelagem,/essa não existe mais
Tinha uma Cibrasém/essa foi para o além
Bradesco e Caixa Econômica/isso ninguém mais encontra


A receita Federal/tá de Patos a Pombal
A usina de algodão/hoje é forró do pueirão
Os vereadores assinaram/um projeto outro dia
Esse foi lascando o pobre/com o talão de energia
Tirando da mesa deles/o pão de cada dia
A eleição se aproxima/eu não sei qual é o dia
A Câmara de vereadores/essa parece um metrô
Não faz nada pelo pobre/nem fala nem da valor


Tinha Basto do motor/com uma vara na mão
Acendia a luz da cidade/pra não ter escuridão
Já passou 50 anos/Piancó não mudou nada
Agora entrou João Bingo/com outra vara na mão
Acende a luz da cidade/pra toda população
Você só ver promessa/quando chega à eleição


Acabou a Cooperativa/IBGE e Funrural/onde o velho aposentava
O diretor era Joval
Acabou a Banda de Música/o Cabaçal ficou atrás
O que tinha em Piancó/você morre e não ver mais


Vou encerrar/,que minha saudação desejada
Do amigo Nêgo Lula/que faz da vida piada
Onde está parece um circo/só se ouvem as gargalhadas
E na mesa de um bar/é o rei da presepada.


Nêgo Lula


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

Em 2001 editei uma publicação intitulada “ALGUNS DADOS SOBRE PIANCÓ”, me baseando em depoimentos do saudoso Mestre Eurides e da Professora Joanita escrevi este texto. Hoje Piancó está em festa e achei conveniente publicar tal ensaio.


NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

O DIA ANTERIOR


Era anoitecer do dia oito de fevereiro de 1926 em Piancó. Quase cessando o movimento de pessoas nas ruas da Vila. Dúvida e apreensão absolutas pairavam na mente de todos. Ao longe os cães latiam anunciando a chegada de um estranho ou a partida de seu dono.

Na sala principal da casa grande, residência do Padre e família, os mosquitos circulavam a luz que iluminava o ambiente tenso. Sentados em círculo, o Prefeito João Lacerda, seu filho Osvaldo Lacerda, Manoel Clementino, escrivão do então Distrito de Aguiar, Hostilio Gambarra, distribuidor em juízo, Pedro Inácio Liberalino, José Ferreira e o Padre Aristides Ferreira da Cruz. Falava-se pouco, sempre conversas entrecortadas, nunca um diálogo demorado. Entra na sala uma senhora de aspecto servil e em silêncio, distribui café e chá aos presentes. Era D. Quita, senhora de Padre e mãe de seus quatro filhos então adolescentes: Jorge, Sebastião, Aristides e Juanita.

Novamente a sós, o silêncio imperava. Aqui, acolá uma frase curta. Todos sabiam do risco de continuar na cidade. O mais sensato seria procurar sair em busca de proteção, mas longe de tentar convencer o Padre dessa ideia.

Logo um alvoroço, uma agitação e entra alguém informando a chegada do cachorro de estimação do senhor José Maria, irmão de D. Quita, e que residia em Coremas. Todos quiseram saber quem o cachorro acompanha. O temor aumentou quando se soube que este havia aparecido sozinho.

Alguém devia estar chegando do vizinho município, por onde a Coluna de revoltosos teria passado naquela manhã.

As horas avançavam feito chamas. Logo chegaria o momento da despedida, das recomendações e do adeus. Estava já acertado, D. Quita, os filhos e os empregados deixariam a casa logo mais, permaneceriam o Padre mais alguns amigos, na manhã seguinte, outros que também resistiriam estavam sendo aguardados.

Em meio a agitação gerada em torno da chegada do cachorro, surge à porta um jovem, apressado, e pede a presença do Padre, uma vez atendido, o mensageiro se identificou e entregou ao Padre um envelope meio amassado e úmido de suor, com um escrito que dizia: “Não tente resistir, é uma ideia absurda. Passa de mil homens com armamento e disposição, alguns até com aparente falta de disciplina. Desde a manhã de hoje Coremas foi invadida por um exército de guerrilheiros desalmados, cruéis”.

A sala se encheu rapidamente, todos apreensivos fitavam o Padre, no seu rosto uma nítida expressão de tristeza. Ele sabia, todos mais uma vez tentariam convencê-lo a deixar a cidade, agora com argumentos mais sensatos. A aflição do Padre poderia ser notada também no semblante desolado de D. Quita e dos filhos. Todos temiam o pior. O Padre estava dominado por uma sensação de impotência. A ideia de abandonar a cidade não era nada honroso para um chefe político na sua envergadura. Dúvida cruel. Enquanto o seu orgulho de homem público e de defensor do povo e da cidade, forçavam-no a ficar, uma porção de medo de perder Quita e os filhos, levava-o apensar na possibilidade de fugir.

Os amigos foram unânimes. O Padre devia sair com a família, deixasse um grupo de homens de confiança protegendo a cidade. E instantes depois o Padre consentiu em acompanhar os seus familiares a uma fazenda distante, até os revoltosos saírem de Piancó. O temor da separação deu lugar a agitação da arrumação dos objetos que levariam na viagem. Já havia alegria entre os presentes na casa grande. As carroças e os animais que seriam usados no transporte da família foram conduzidos até a porta da frente.

Um levava, o outro trazia, um dizia, outro escutava, mas, o Padre continuava pensativo, distante dalí, alheio ao que se falava na vasta sala, pelas janelas fronteiriças seu olhar vagueava o mundo à fora. O “tigre” acuado em sua morada. Recordou a hecatombe de 1922, fazia quatro anos, teve que fugir e buscar junto ao Presidente Epitácio Pessoa, seu chefe, proteção para voltar a assumir o poder no munícipio, foi a mais cruenta e desastrosa contenda com a família Leite. Agora teria que fugir de novo. E o telegrama do Governador João Suassuna? Era a oportunidade ideal de conquistar a simpatia do governante, que por sua vez demonstrava mais aproximação com os seus inimigos políticos. Não podia também decepcionar a população local, deixando que os seus bens fossem saqueados e destruídos.

Há instantes da partida, voltou atrás e mudou de ideia. bateu o pé e não saiu além da calçada para despedir-se da família. Era esperada uma reação de descontentamento dos amigos, o que se deu certamente, mas não convenceu e o Padre ficou.


Antonio Francisco

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