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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

Em 2001 editei uma publicação intitulada “ALGUNS DADOS SOBRE PIANCÓ”, me baseando em depoimentos do saudoso Mestre Eurides e da Professora Joanita escrevi este texto. Hoje Piancó está em festa e achei conveniente publicar tal ensaio.


NOVE DE FEVEREIRO CINZENTO

O DIA ANTERIOR


Era anoitecer do dia oito de fevereiro de 1926 em Piancó. Quase cessando o movimento de pessoas nas ruas da Vila. Dúvida e apreensão absolutas pairavam na mente de todos. Ao longe os cães latiam anunciando a chegada de um estranho ou a partida de seu dono.

Na sala principal da casa grande, residência do Padre e família, os mosquitos circulavam a luz que iluminava o ambiente tenso. Sentados em círculo, o Prefeito João Lacerda, seu filho Osvaldo Lacerda, Manoel Clementino, escrivão do então Distrito de Aguiar, Hostilio Gambarra, distribuidor em juízo, Pedro Inácio Liberalino, José Ferreira e o Padre Aristides Ferreira da Cruz. Falava-se pouco, sempre conversas entrecortadas, nunca um diálogo demorado. Entra na sala uma senhora de aspecto servil e em silêncio, distribui café e chá aos presentes. Era D. Quita, senhora de Padre e mãe de seus quatro filhos então adolescentes: Jorge, Sebastião, Aristides e Juanita.

Novamente a sós, o silêncio imperava. Aqui, acolá uma frase curta. Todos sabiam do risco de continuar na cidade. O mais sensato seria procurar sair em busca de proteção, mas longe de tentar convencer o Padre dessa ideia.

Logo um alvoroço, uma agitação e entra alguém informando a chegada do cachorro de estimação do senhor José Maria, irmão de D. Quita, e que residia em Coremas. Todos quiseram saber quem o cachorro acompanha. O temor aumentou quando se soube que este havia aparecido sozinho.

Alguém devia estar chegando do vizinho município, por onde a Coluna de revoltosos teria passado naquela manhã.

As horas avançavam feito chamas. Logo chegaria o momento da despedida, das recomendações e do adeus. Estava já acertado, D. Quita, os filhos e os empregados deixariam a casa logo mais, permaneceriam o Padre mais alguns amigos, na manhã seguinte, outros que também resistiriam estavam sendo aguardados.

Em meio a agitação gerada em torno da chegada do cachorro, surge à porta um jovem, apressado, e pede a presença do Padre, uma vez atendido, o mensageiro se identificou e entregou ao Padre um envelope meio amassado e úmido de suor, com um escrito que dizia: “Não tente resistir, é uma ideia absurda. Passa de mil homens com armamento e disposição, alguns até com aparente falta de disciplina. Desde a manhã de hoje Coremas foi invadida por um exército de guerrilheiros desalmados, cruéis”.

A sala se encheu rapidamente, todos apreensivos fitavam o Padre, no seu rosto uma nítida expressão de tristeza. Ele sabia, todos mais uma vez tentariam convencê-lo a deixar a cidade, agora com argumentos mais sensatos. A aflição do Padre poderia ser notada também no semblante desolado de D. Quita e dos filhos. Todos temiam o pior. O Padre estava dominado por uma sensação de impotência. A ideia de abandonar a cidade não era nada honroso para um chefe político na sua envergadura. Dúvida cruel. Enquanto o seu orgulho de homem público e de defensor do povo e da cidade, forçavam-no a ficar, uma porção de medo de perder Quita e os filhos, levava-o apensar na possibilidade de fugir.

Os amigos foram unânimes. O Padre devia sair com a família, deixasse um grupo de homens de confiança protegendo a cidade. E instantes depois o Padre consentiu em acompanhar os seus familiares a uma fazenda distante, até os revoltosos saírem de Piancó. O temor da separação deu lugar a agitação da arrumação dos objetos que levariam na viagem. Já havia alegria entre os presentes na casa grande. As carroças e os animais que seriam usados no transporte da família foram conduzidos até a porta da frente.

Um levava, o outro trazia, um dizia, outro escutava, mas, o Padre continuava pensativo, distante dalí, alheio ao que se falava na vasta sala, pelas janelas fronteiriças seu olhar vagueava o mundo à fora. O “tigre” acuado em sua morada. Recordou a hecatombe de 1922, fazia quatro anos, teve que fugir e buscar junto ao Presidente Epitácio Pessoa, seu chefe, proteção para voltar a assumir o poder no munícipio, foi a mais cruenta e desastrosa contenda com a família Leite. Agora teria que fugir de novo. E o telegrama do Governador João Suassuna? Era a oportunidade ideal de conquistar a simpatia do governante, que por sua vez demonstrava mais aproximação com os seus inimigos políticos. Não podia também decepcionar a população local, deixando que os seus bens fossem saqueados e destruídos.

Há instantes da partida, voltou atrás e mudou de ideia. bateu o pé e não saiu além da calçada para despedir-se da família. Era esperada uma reação de descontentamento dos amigos, o que se deu certamente, mas não convenceu e o Padre ficou.


Antonio Francisco

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