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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Loucura de Apaixonado

Devo iniciar minha história falando de Izídero, que a gente chamava Izídio.
 Parece que estou vendo. O corpo alvo de Izídio, nu da cintura pra cima; ou melhor, coberto com um lençol muito alvo. Nunca me disseram a idade de Izídio. Devia ter uns trinta anos.

 Pois bem. Conheci Izídio – meu primeiro amigo – acometido (ele) de alguma enfermidade e deitado numa cama. Não me diziam nada sobre a doença dele. Eu tinha, nessa época, uns quatro anos. A verdade é que Izídio estava ali apenas esperando a morte. Fora para Campina Grande extrair uma bala, mas os médicos não conseguiram. Duraria apenas, isso no máximo, dois meses.

 Nunca me contaram direito a história de Izídio; de modo que a que vou contar aqui deve ter muito da minha imaginação. Aliás, muitas das histórias que contarei neste folhetim que hoje inicio tem muito da minha imaginação. Fatos que a minha versão pode ter desvirtuado. Sou um sujeito assim. Às vezes acredito que ela aconteceu, então ela vira verdade na minha cabeça; vira uma nuvem que passa, ora nítida, ora distante.

 A história que ouvi sobre Izídio foi uma bonita história de amor. Digna de romance. Repito: a história é verdadeira. Se minha imaginação aumentar, é coisa pouca.

 Izídio namorava uma moça, lá em Piancó. Os pais e os irmãos dessa moça não queriam o namoro. Davam nela, amarravam-na no terreiro de casa, deixavam-na de castigo... Tudo isso para que ela acabasse aquela história de gostar de Izídio.

 Izídio resolvera, então, tirar a moça da cidade, fugir com ela até um sítio próximo, o que se chama lá no interior, roubar a moça. Tinha que receber uma lição. Os irmãos dela resolveram, então, ir buscá-la e tirá-la “na marra” de Izídio. Fortemente armados – não sei o número, mas eram muitos – investiram contra Izídio, que não quis entregar a moça. Em desvantagem, não cedeu, mas terminou perdendo a namorada e sendo baleado. Agora estava ali, naquele estado, inutilizado numa cama.

 Eu ia para ali, para a casa de Izídio, todas as noites, cantar. Ele adorava me ouvir cantando. Me admirava muito; me achava inteligente. Eu, inocente, não sabia na época, que Izídio iria morrer em tão pouco tempo. A história de Izídio deve ser transformada, depois, em livro, desta feita contada em mais detalhes. 

De modo que o primeiro episódio marcante da minha vida foi esse: Izídio, o meu primeiro amigo, morreu por amar demais uma mulher. O amor e a morte entraram, então, na minha vida, logo cedo, fazendo de mim um sentimental em excesso, um homem dado a paixões descontroladas, uma sensibilidade extrema, carregada de emoções à flor da pele.
 (Publicada no extinto jornal O NORTE)

Por João Trindade

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