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terça-feira, 15 de junho de 2021

Festa de Santo Antônio: os cavalinhos chegaram


"Os cavalinhos chegaram", gritava uma criança, surgida do nada, ao ver o empoeirado caminhão do Parque Lima apontar na pontezinha da entrada de Piancó, ali perto da Rua Nova, onde ficava a oficina de Severino Leite. Esse era o primeiro anúncio de que a festa do Padroeiro Santo Antonio seria realizada com toda animação. O aviso corria de rua em rua na velocidade do menino nu da cintura pra cima e, em pouco tempo, todos ficavam sabendo que o parque de diversão estava na cidade. Chegar, para a gente, tinha um significado muito grande. Era sinal de alegria e felicidade.

Era como se a criançada combinasse para um ficar esperando o momento da vinda do parque, aguardado o ano inteiro. Esse instante de intenso contentamento representava o ponto alto das férias de junho. Tão logo o velho caminhão, com sua cabine cinza, capô preto e carroceria verde, estacionava ao lado da Praça Salviano Leite, a gurizada tomava conta do local à procura dos "cavalim", os brinquedos preferidos.

Independente dos preparativos religiosos, a festa para nós começava ali. Crianças e funcionários de "seu" Lima, dono do parque, se misturavam sob um céu extremamente azul. Sem se importar com o sol forte que deixava nossa pele totalmente vermelha, acompanhar de perto e ver todo o trabalho de montagem do carrossel e da roda gigante era um colírio para todos.

Os que estudavam pela manhã passavam a tarde observando os serviços. Quem ia para a escola à tarde tinha a manhã livre pra ver a correria. As tarefas de casa ficavam para depois, talvez à noite. O importante era estar ali pertinho olhando tudo.

As mães compreendiam essa necessidade dos filhos verem cada peça sendo montada. Com a sabedoria infinita que toda mãe carrega consigo, percebiam que esse momento, repetido a cada ano, era mágico. Era um encanto aos nossos olhos. A expectativa da montagem do parque só não superava a ansiedade de vê-lo funcionando.

Não sei por que, mas os "cavalinhos" exerciam uma magia em nós. Acho que era por conta do sentimento telúrico que existia, já que como sertanejos estávamos ligados às coisas da região. Havia uma identificação com esse brinquedo. Talvez porque no embalo do carrossel, viajássemos pelo mundo da imaginação, fazendo com que realidade e fantasia se tornassem uma coisa só.

Cada cavalo que montávamos, no sobe e desce da mola de aço, cavalgava mais que os demais, mesmo sem sair do canto. O pensamento inocente corria mais depressa e, naquelas voltas, conquistávamos nossas fazendas e nossos animais. Essa viagem encantada só terminava quando aquela alavanca impiedosa era puxada para trás por um funcionário insensível que, por dever de ofício, interrompia nosso sonho.

Entre as opções de divertimento havia, também, a roda gigante que girava sob o controle do simpático gordo Xerefa. Mas altura era coisa para as moças e rapazes, que se beijavam escondido, aproveitando a proximidade com as estrelas, ao som de músicas oferecidas pelos apaixonados, em forma de postal sonoro anunciado pelo locutor de voz grossa.

Mas, bom mesmo, também, era saborear cachorro-quente com guaraná Antarctica, nas barracas que faziam parte da caravana daquela empresa de diversão campinense. Enquanto os rostos infanto-juvenis se enchiam de alegria, os pais tinham o cuidado de separar um dinheirinho para que seus filhos pudessem se divertir.

Diz Zé Napoleão que as lembranças estão tão vivas em sua memória que, ainda hoje, sente o cheiro da tinta que pintava os bichos, com destaque para um cavalo pampa e outro empinado (o preferido de João de Joval), duas zebras, dois burros, além de outros. A pintura era tão nova quanto as roupas que nossos pais compravam para a festa. Mas para que roupas se ninguém as enxergavam, pois todos viam apenas os brinquedos.

Atualmente, a criançada prefere os carrinhos elétricos. Sinal dos tempos e do avanço tecnológico em um mundo globalizado. Afinal, em terra onde sertanejo tange gado montado em moto pra que cavalo? Pior será no dia em que os animais forem totalmente substituídos pelas máquinas. Talvez, assim, sintamos saudades da simplicidade e da ternura. Graça à Deus, tive a felicidade de ter levado minhas filhas Emília e Manuella ao Parque Lima de minha infância, pouco tempo antes da chegada dos eletrônicos.

É importante lembrar que a Festa de Santo Antonio sempre representou um momento de congraçamento entre as famílias. É o tempo dos piancoenses que moram fora se fazerem presentes em sua terra natal para matar as saudades e se confraternizar com familiares e amigos, nas novenas e quermesses.

Houve uma época em que apenas o ex-senador Rui Carneiro e o doutor Salviano Leite participavam das festividades. Aliás, foram os dois que iniciaram a tradição do mundo político paraibano se reunir em Piancó nesse período. Hoje, lamentavelmente, o aspecto político-partidário supera tudo, inclusive a parte religiosa. Há os que gostam desse momento de falsidade e conchavos. Há, no entanto, os que consideram isso uma invasão.

Certa vez, ao ser perguntado sobre a importância da presença de certos políticos nos festejos do padroeiro de nossa cidade, um amigo respondeu: "prefiro os cavalim". E eu também.

* Jornalista e professor universitário, piancoense, radicado em Campina Grande

domingo, 9 de maio de 2021

Como esquecer?



Hoje me bateu uma saudade enorme,  do tempo que a nossa família morava no Piancó. E não poderia deixar de falar da nossa Fazenda Volta.  Guardo essa relíquia com muito carinho.

Fecho os olhos e vejo os meus filhos Ademar Filho, Joanna Paula e Olívia, à noite brincando em frente ao nosso Casarão, com a meninada da nossa rua. E eu ficava sentada na cadeira de balanço, recebendo à  brisa, e sempre em boas companhias, apreciando as brincadeiras das crianças, e muitas vezes até também participava. 

Na fazenda, era uma maravilha!!!!!!
Logo cêdo, as crianças levantavam e com um copo na mão, corriam para o curral, para tirar o leite de uma  vaca,  que o vaqueiro já deixava separada.

Ainda andavam de cavalo e tomavam banho na barragem. 
Faziam cozinhado debaixo das árvores, juntamente com os filhos dos moradores. Eles colhiam o feijão na roça, e eu só as via entrarem correndo para a cozinha, pra pegar a mistura e os temperos.

À  tardinha íamos todos colher o algodão, que era plantado perto da nossa casa. 
Eu tinha uma criação de Guinés, era a minha paixão. Era em torno de 120. Eu no finalzinho da tarde, ía colher os ovos com uma colher. Se tocasse com as mãos, os ninhos seriam abandonados. 

À noite, tinha um filho de um morador, por nome de Juarez,  que tocava muito bem violão. Aí era a minha vez. Eu ficava deitada na rede da varanda, com algumas famílias dos  moradores, até tarde da noite, cantando todas as músicas do meu repertório. 

Ademar já deitado, ficava me chamando pra dormir. Eu só respondia, já vou........  

Como esquecer,  meu DEUS.  Eu era feliz e não sabia!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Gláucia Bronzeado
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